quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

SURGE MAIS UMA ESTRELA: A ESCOLA DISPARATE


por Raimundo Palhano

Em meio à frenética profusão de escolas emergentes que se observa no Brasil atual, em um espectro que vai da Escola Sem Partido à Escola de Ensino Doméstico, surge mais uma, sem pé e nem cabeça, que me parece poderia ser chamada de Escola Disparate.

Cheguei a essa conclusão ao ler a entrevista do Ministro da Educação do Brasil, um professor, concedida a periódico de circulação nacional, na qual taxava a nós brasileiros de reles canibais, pois, quando em viagem, surrupiamos tudo dos hotéis, e até mesmo o assento salva vidas dos aviões.

Achei, de imediato, que fosse mais uma fake news, tão em moda, ou uma piada de mau gosto. Segundo a explicação, carregamos tudo que nos aparece pela frente e que não nos pertence. Somos um mix de canibais, antropófagos e predadores.

A nova pedagogia que o Ministro imagina para o Brasil deverá se fundamentar nesses princípios e ideias e o seu objetivo é civilizar a cabeça brasileira. A Escola que o Brasil precisa, segundo a Autoridade, passará, fatalmente, pela descanibalização de Macunaima.

Se isso for verdade mesmo, ainda tenho dúvida, não duvido, por outro lado, que o tema da redação do próximo Enem será discorrer sobre uma questão das mais candentes: 

“Jack, o estripador, teria sido um canibal ou um antropófago?”.

E não adianta buscar explicações no Movimento Antropofágico de Oswald e Tarsila, que propunham uma identidade nacional para a cultura brasileira. O Jack, para responder à pergunta, é aquele que aterrorizava os arredores de Londres em 1888, pelos crimes inacreditáveis.

Outro aspecto da entrevista desatinada, que me feriu o coração, foi a composição de intelectuais e educadores que formariam o pantheon brasileiro daquela Autoridade. Insinuou, com a maior convicção, que seria mais adequado o Olavo de Carvalho ocupar o lugar de Paulo Freire.

Até ontem não imaginava que seria possível alguém, por mais genial que pudesse ser, tentar apagar a História com esponjas molhadas.

A insensatez estava em muitos lugares daquela reportagem jornalística. Faca nos dentes cerrados para enfrentar o marxismo, ainda hoje a maior das utopias humanas; a universidade das elites e para os iluminados, tendo como o seu maior problema o ANDES; entre outros pontos de vista no mínimo surrealistas.

Não entendi a falta de compaixão, para não dizer de respeito, para com o  Cazuza, a quem a cultura brasileira contemporânea e milhares de jovens tanto reverenciam. O Ministro, ao valorizar o seu entendimento próprio sobre o que é liberdade, desqualificando o do artista é, no mínimo, um despropósito, incabível em autoridades de porte ministerial. De Rousseau a Cazuza, mesmo passando por Renato Russo, ainda não sabemos o que é ser livre. “Que país é este?” Que pedagogia é essa?                                             
Confesso que ando muito desorientado. Vejo o mundo todo e o nosso país numa espécie de desatino generalizado. Sinto na pele e na alma um desassossego com os sinais do retrocesso. 

As ideias sobre os problemas educacionais são desalentadoras, justamente em um momento em que andar para a frente poderia ser uma esperança.