sexta-feira, 3 de abril de 2015

PELOS 80 ANOS DE JACKSON LAGO



Por Raimundo Palhano


Entre os dias 6 a 19 de abril, o Centro de Criatividade Odyllo Costa, filho, abrigará a exposição fotográfica comemorativa dos 80 anos do governador Jackson Lago, que aconteceria em 1º de novembro do ano passado. Mais uma oportuna iniciativa do Instituto que leva o seu nome, dirigido pela delicadeza da grande dama Clay, e de um vasto número de parentes e admiradores do saudoso patrono.

A memória maranhense é inelástica. Não costuma homenagear a quem merece. Aqui só é quem pode e quem tem. Placas e pergaminhos em geral, só servem para quem os concede e para quem os recebe.

O passado e os seus feitos são desprezados ou esquecidos tranquilamente, indo para a vala comum de sangues e honras derramadas, soterrando-se uma das culturas mais genuínas deste país.

É visível o predomínio de uma incapacidade crescente de entendimento, discernimento e senciência a respeito do passado, presente e futuro do Maranhão.

Digo isso com muita dor no peito, ao render esta pequena homenagem a um dos maiores líderes políticos de todos os tempos no Maranhão, o governador Jackson Lago, a propósito do significado do que foram seus 80 anos, não concretizados em vida.

Não podemos nos calar e omitir diante do destino trapaceiro que nos impõe esse fado.

Embora afirmasse sempre que o povo é maior e que em seu governo haveria de chegar a vez do povo, Jackson foi um dos melhores da raça timbira e o maior dos nossos homens públicos na contemporaneidade, justamente porque, diferentemente daqueles que o antecederam, reunia pelo menos três grandes virtudes capitais: capacidades de entender, de discernir e de se sensibilizar.

A ofensiva contra o seu governo começou pela ação infame dos adversários históricos que, desde o primeiro momento, partiram para destruir a sua reputação pessoal e, via de consequência, apagar da memória a nova pedagogia de governar o Maranhão que estava nascendo e as conquistas que certamente viriam muito cedo.

Impressiona o “esquecimento voluntário” a respeito do legado de seu governo que, em pouco mais de dois anos de atividades, conseguiu gestar dezenas de iniciativas que ajudariam a mudar radicalmente a realidade estadual, tanto em termos políticos e econômicos, como no modo de organizar e estruturar o poder governamental, na direção de uma nova promissão. 

O “nada fez” que se ouve de tantos extraviados, ofende não só a luta renhida de um bravo, como o suor de tantos que se doaram.

Há um silêncio “respeitoso” demais para com uma obra inacabada que muito poderia inspirar as novas gerações que querem ser governantes deste Estado. Uma obra que clama por respeito, certamente, mas que precisa ser colocada do avesso, como continua sendo o desejo profundo dos tantos que colaboraram para sua construção.

Jackson foi o maior não por ter sido um prefeito notável para São Luís ou um governador visceralmente disposto a ousar e, com o poder popular, construir as bases da libertação da sociedade maranhense.

Foi o maior sobretudo pelo seu passado de lutas, de ideário e por seus imperativos éticos. Foi por sua força moral, por sua capacidade de entender o Maranhão e seus desafios, de discernir sobre o que é mais relevante na existência humana e na construção política e, principalmente, por sua inigualável sensibilidade como ser humano e como sujeito histórico consciente.

Jackson, por mais que tenham tentado e mesmo conseguido sepultá-lo vivo, não passou por essa vida como um carreirista da política, ou como um equivocado colecionador de ossos: ele ajudou a escrever a história política recente do Maranhão com um atributo raríssimo: o compromisso com princípios humanitários no modo de fazer política profissional.

A virtude do entendimento esteve presente o tempo todo em seu governo e na sua maneira de governar. Desde cedo sabia que para ascender ao cargo de governador teria que compor um governo pentecostal, ou seja, que falasse por várias línguas.

Conhecia muito bem a arquitetura do poder político do Maranhão, seus apetites e interesses não declarados. A engenharia política que teceu precisava atender às exigências dos que controlavam o trono, mas foi capaz também de promover o ecumenismo de vontades, abrindo as portas dos Leões para segmentos do poder popular que, em tempo algum, imaginariam transpor aquelas sólidas paredes e assumir posições de comando e de liderança.

A capacidade de discernir lhe era transbordante. Decorria de um traço pessoal como militante e como dirigente, que era o fato de ter atingido um estágio de entendimento próprio sobre o Maranhão e os seus dilemas e desafios, obtidos pelos anos a fio de exercício de uma cidadania política ativa, por força de vínculos orgânicos sólidos com uma plêiade de líderes políticos libertários nacionais e do terceiro mundo.

Guardo com muito orgulho a imagem despojada do governador, segurando cuidadosamente sua prancheta de anotações, deslizando como um pássaro de primeiro voo, entre grupos de trabalho no Baixo Parnaíba e em tantos outros territórios, captando os sentimentos do povo esquecido do interior do Maranhão, recolhendo com todo o zelo a matéria prima que iria servir aos seus projetos para tirar o torrão maranhense do descaminho e da escuridão centenária.

A privilegiada capacidade de discernir fez com que Jackson ficasse imune à maldição do poder, aquela que acometeu Juanito, pobre coitado, que perdeu o prumo e o rumo com um simples carguinho. 

Como poucos, tinha total clareza que o poder pelo poder é a maior das ilusões. O cargo não passava de uma chance única de continuar servindo aos seus compromissos pessoais e coletivos e uma oportunidade de ouro para tornar possível um sonho.

Soube discernir, como bem poucos, e sentiu intensamente na pele e na alma, que ser o chefe dos Leões também impunha limites. Além de perceber que o lugar do poder estava acima das estruturas governamentais, aqui e em qualquer lugar, sabia de sobra que apenas o poder do trono não garante tudo que se quer. 

Tinha claro que mudar as coisas fazendo do mesmo jeito que outros fizeram era impossível de acontecer, ou, no máximo, uma enorme ingenuidade política; e, de outro, por mais que houvesse coerência entre o que se queria e o que se fazia, a mudança sempre dependeria das cabeças e dos costumes que predominassem na sociedade.

A capacidade de senciência foi talvez o maior dos seus trunfos. Os problemas recorrentes, a refrega política e a racionalidade administrativa levam o governante à frieza dos números e dos cálculos estratégicos, retirando-lhe a sensibilidade, o que Lago tinha muito, a despeito do ar sempre solene. A educação esmerada, a polidez dos gestos e atitudes, a atenção com os outros, sempre iguais, davam-lhe um carisma invejável.

Graças a esse dom incomum, o seu governo criou uma mística mobilizadora, que se espalhou em várias áreas da administração, atraindo o que de melhor existia na cultura, na arte e na inteligência local e de muitas partes do interior do Estado.

Houve um fervilhar de ideias. Poder planejador, regionalização do desenvolvimento, descentralização do orçamento e finanças, cultura popular, cooperação internacional, turismo sustentável, bacias hidrográficas, infovias, desprovincianização e tantos outros projetos inovadores nascem ao mesmo tempo.

O mais notável de tudo isso todavia foi a possibilidade única que o governo de Jackson abriu para que gerações se encontrassem para construir com ele, e sob sua inspiração, um ministério para traçar os sonhos do futuro explodindo de paixão. 

Vida longa, Governador.


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

O MARANHÃO INTERIOR


                                                                                               por Raimundo Palhano

O Maranhão é único visto como história. Por maiores que sejam as semelhanças e convergências com outros estados vizinhos, ou com mundos lá fora, há uma seiva especial gerada pelos filhos da terra. É o conteúdo do invólucro que define o seu modo de não ser, a sua esperança de morte e o seu potencial de transcendência.

Não há santo, gênio ou governo no mundo que sobreviva sem revelar e respeitar esse tesouro. Mesmo sabendo disso, em última análise, é para isso que os governos deveriam se aventurar. É para isso que santos e gênios existem.

O etos maranhense decorre de duas matrizes geográficas: uma que se origina no interior e outra que brota das ruas e das casas citadinas. Em uma perspectiva de longo prazo, os dois distintivos se separaram, por descuido ou omissão, ficando nos confins a sua parte mais esquecida: o Maranhão do interior.

Com efeito, a história do Maranhão possui características e peculiaridades que levaram à configuração desse quadro. 

O povoamento à época da ocupação europeia apresentava-se fraco, em torno do golfo maranhense e da ilha que abrigava a Capital, tendente à redução. O comércio com Lisboa era pequeno, sobretudo pela falta de braços. Não podiam importar africanos e a escravização dos indígenas gerava conflitos com o projeto econômico e catequético dos jesuítas. A tendência declinante nas primeiras décadas do século XVIII eram evidentes. Boa parte dos beneficiários das doações vivia na metrópole portuguesa, sem a menor preocupação com o destino de suas capitanias. Os habitantes do território mantinham-se afastados dos povoados, embrenhados em suas roças e propriedades. 

Trazendo o passado para hoje, mesmo decorridos tantos anos, não há como negar o atavismo presente no diálogo contemporâneo com o interior.

Outro fato histórico também influi no fenômeno. O longo período de isolamento do Maranhão em relação ao restante do Brasil, por exemplo, produziu várias consequências para a sua formação social, política e cultural, destacando-se o tardio desenvolvimento de sua economia colonial e a forte identificação com Portugal, a ponto de só aderir à Independência mediante intervenção armada, isto em 1823.

Mesmo a introdução da Companhia Geral de Comércio do Maranhão e Grão-Pará - CGCMGP, iniciativa do Marquês de Pombal, no reinado de D. José I, a partir da segunda metade do século XVIII, período em que a economia colonial maranhense assumiu relevância, produzindo algodão, arroz e mais tarde, já no século XIX, cana-de-açúcar, produtos de larga valorização à época, não conseguiu desenvolver o interior, que seguirá sendo área apenas para o emprego de fatores de produção econômica e, mais recentemente, reserva de valor para grandes empresas, elites econômicas e políticas.

Não esquecer que a “era do ouro” da economia maranhense, representada pela CGCMGP visava transformar o Maranhão, embora tardiamente, em uma colônia tropical clássica e, para isso, possuía dois monopólios decisivos: o do transporte e o do comércio externo. Indubitavelmente, lançou as bases do notável surto de desenvolvimento das quase cinco décadas seguintes, indo até às primeiras do século XIX, reforçando os fluxos e drenos que levavam para a Capital os benefícios materiais do aumento da riqueza produzida.

Tais circunstâncias influenciaram na configuração de uma mentalidade, presente nos beneficiários locais, representados por algumas centenas de senhores de terras e comerciantes, que se identificava com uma visão centralizadora e concentradora dos frutos do progresso.

O projeto cultural dessas elites baseava-se no transplante da civilização europeia. Símbolos disto: sobradões de paredes duplas, fachadas de azulejo, criadagem numerosa, filhos doutorando-se em Coimbra e Lisboa, assimilação dos gostos e modas europeias, indo do mobiliário, alfaias, baixelas, trajes, comidas, bebidas e lazeres.

A grande lavoura e o trabalho escravo, sobretudo entre a segunda metade do século VIII e as primeiras décadas do século XIX, fizeram do Maranhão uma das áreas mais ricas do Brasil, tornando São Luís, com cerca de 25.000 habitantes em 1822, a quarta cidade brasileira, atrás apenas do Rio de Janeiro, Salvador e Recife. Chegou a ter entre 100 e 150 navios por ano no porto e exportava ao redor de 1 milhão de libras, quase um terço das exportações do Brasil. No período o Maranhão era o segundo maior produtor de algodão, perdendo apenas para Pernambuco.

Formou-se então uma elite próspera no seio da qual saíram os poetas, os juristas, os políticos, os jornalistas e os eruditos, responsáveis pela distinção cultural da Província, que se sedimentará mais adiante, levando à mística construída pelos pósteros da Capital Atenas, principalmente pela sua condição de sucursal das luzes europeias, revigorando o dar as costas e o desprezo pelo interior e sua cultura, tratadas desde sempre como segunda categoria.

Impossível, portanto, não reconhecer que os determinantes que informam o etos maranhense estão associados a esses grandes momentos da sua formação social. Voltar-se mais para Lisboa do que para dentro de si, ou mesmo para o Brasil, produziu um contexto social, político e cultural que engendrou a dissolução voluntária dos vínculos originais e posteriores, responsável pela dualidade da “civilização” maranhense, colocando o interior do Maranhão no extravio de forma inexorável.

A resultante desse movimento histórico e dinâmica social produziu no imaginário e nas práticas políticas dos governantes e das elites dirigentes e seus seguidores a fixação na ideia de que o passado, o presente e o futuro do Maranhão começam sempre a partir de sua metrópole. Ao interior fica reservado o pão e o circo, itinerâncias à base de missangas, para trocas de presentes sem valor e apertos de mãos geladas, que mal servem para um “toma lá, dá cá”, no fundo, mais um golpe mortal no que restou de dignidade nas relações políticas com o interior.

Impossível mudar a realidade maranhense sem uma engenharia política que promova o reencontro das duas civilizações desgarradas. Pouco se conhece sobre o Maranhão interior; o composto de verdades está relacionado a um modo "metropolizado" de governar e de conduzir o desenvolvimento do Maranhão, concentrado e centralizado pelos palácios de São Luís.

Implodir o velho e reinventar o novo passa pela ruptura mental com essa ideologia. Começará quando o complexo cultural representado pelos 217 municípios for assimilado e incorporado pela cultura institucional, pelas estratégias econômicas e pelos partidos no poder. 

Quando o diálogo entre as duas civilizações for horizontal, aí sim será possível começar a falar em profecias ou aspirações, como revolução democrática. 

E isso só será possível porque as atuais estruturas de poder serão substituídas por outras, que precisam estar visceralmente comprometidas com a devolução do poder ao povo maranhense, representado altivamente por suas 217 bandeiras.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

DO ESTADO DE UM PARA O ESTADO DE TODOS


                                                                          

                                                                por Raimundo Palhano

A ascensão ao poder de Flávio Dino em 2015, consequência da vitória eleitoral de 2014, rompe um ciclo da história política maranhense, fenômeno iniciado por Jackson Lago, no curto período de 2007-abril de 2009, destronado pelo complexo político-jurídico reinante, ao abrir as cortinas para novas esperanças. 

Dino passará para a história da libertação do Maranhão se desconstruir a estrutura de poder político e econômico montada desde fins da primeira república (1930 em diante) e revigorada ao extremo nos últimos 50 anos. 

A sua força e liderança moral para promover uma nova cultura política dependerão da capacidade de não se deixar seduzir pelo fascínio do poder, abdicando conscientemente dos acúmulos inerentes ao papel de governador, que lhe será confiado, repartindo e compartilhando efetivamente com a sociedade local o poder que lhe chegar às mãos.

Simbolicamente pode-se dizer que a era das oligarquias acabou no Maranhão, o que vem sendo afirmado, de forma surpreendente até, pelos próprios representantes do poder moribundo. A era nova que virá já começou ontem e nascerá a cada manhã, se a noite não ofuscar a luz do sol.

Construir uma nova subjetividade sobre o Maranhão, fora dos limites do discurso tradicional empregado para justificar e condenar o atraso político e social, pisado e repisado à exaustão nas últimas décadas, é a maior das prioridades e requer, de imediato, que se faça o diagnóstico honesto do referido Estado. 

Para deflagrar o processo de ruptura é necessário ir além dos limites ideológicos do seu passado mítico, que alimentaram tanto as forças do poder único, agora perdidas e sem rumo aparente, como as elucubrações dogmáticas dos poucos heróis da resistência e seus fervorosos partidos e agremiações de oposição.

A nova narrativa para um Maranhão reinventado nascerá do entendimento a respeito de onde efetivamente decorrem os problemas do Maranhão. Os minimamente informados sabem que essa origem vem das questões políticas e econômicas não ou mal resolvidas. Mas não fica só nisso. O corte exige precisão cirúrgica e sobretudo capacidade de enfrentamento e de resolução.

Algumas mazelas estão à flor da pele. A televisão como primeiro poder é uma das mais proeminentes. Não se trata de reacionarismo contra a tv. O que precisa ser neutralizado são os efeitos nocivos de um sistema de poder que governa com as televisoras e não com a sociedade e seus desafios.

Ferir mortalmente o sistema de privilégios que foi se cristalizando no Estado, começando nas maiores cidades e se projetando na totalidade dos municípios, ocupa posição estratégica. Causa pavor a ação das várias formas de incúrias e injúrias na vida cotidiana da sociedade inclusiva. As relações promíscuas escandalosas entre esfera pública e esfera privada, tendo como epicentro a força devastadora da corrupção, exauriram a confiança da população na capacidade do estado e dos governos como entes comprometidos com a satisfação das necessidades sociais.

Colocar no lugar do morto um Maranhão vivo passa obrigatoriamente pela delicada questão da efetividade das políticas públicas. A visão megalômana de que só os grandes projetos, ou os grandes potentados, ou os imensos panteões são capazes de desenvolver o Maranhão precisa ser varrida para sempre das cabeças timbiras, inculcadas com muita eficiência pelas camadas dominantes. O novo cenário que se abre desafia a sociedade civil a assumir um protagonismo ativo, quebrando, de forma irreversível, uma inércia secular, com o que passará a dispor de condições objetivas capazes de reduzir o peso desproporcional do governo e aliados na definição de prioridades públicas.

O Maranhão é introvertido e o maranhense mais ainda. O poder imperial que aqui se instalou e se perpetuou estimulou a renúncia cívica de boa parte do povo. Os direitos civis e sociais ficaram restritos a bem poucos, deixando no esquecimento e na exclusão a maioria demográfica. A cidadania restringida reforça o papel do clientelismo, do favor, dos cabos eleitorais e da servidão voluntária, transformando boa parte da massa em carneirinhos dóceis e conformados. As classes médias tradicionais e as emergentes, que poderiam ter um protagonismo político e social mais orgânico, em geral silenciam, sobretudo por medo dos donos do poder, que fecham as portas sem piedade para todos os que não se adaptam à lógica do poder dominante.

O diagnóstico honesto do Maranhão conduzirá ao conhecimento efetivo da realidade e das potencialidades estaduais, sem o emprego de mistificações e de falsificações que impeçam os avanços socialmente necessários. É o melhor caminho para abalar a crença de que cada povo sempre tem o governo que merece, situação que reforça o conformismo social, e também a melhor estratégia para levar o governo e a sociedade a tomarem o destino do Maranhão em suas mãos. Só assim será possível vencer o medo e as inquietações sobre o futuro: tornando concreto o compartilhamento das responsabilidades com o desenvolvimento estadual.

Não há como fugir dessa convocação histórica. Há uma nova engenharia política a ser elaborada que vai além das comemorações e dos feitos que levaram à vitória nas urnas. O Maranhão não deixou de ser um território marcado pelo acúmulo de erros e omissões, completamente impunes e mesmo não revelados, que foram construindo contextos paradoxais e assimétricos, tanto no corpo como na alma maranhense. O barco pode afundar muito cedo se não for conduzido para a grande viagem que não houve. 

As alianças e coalizões costurados em bases complexas, a presença de atores políticos que se doutoraram aprendendo as lições do antigo regime, provenientes de governos divididos, fazem com que a sociedade e os formadores de opinião não esperem muito dessa classe política, o que exigirá do núcleo inteligente do governo muita habilidade e sabedoria para operar o milagre da multiplicação dos pães e da transformação da água em vinho. Milagres há para as causas sem solução, mesmo quando as nuvens do céu se escondem nos labirintos do horizonte.

Só falar em mudança é pouco. É preciso fazer acontecer o novo viável e sustentável. A classe política tradicional e boa parte da elite econômica, social e intelectual é formada por autistas nessa matéria. As intenções de mudar desses segmentos, ao longo das décadas, são e sempre foram muito tênues. O mais dramático é que serão necessariamente convocados para a missão de construir a mudança, rearmar o Maranhão institucional e mentalmente. Um desafio para o qual serão também convocados os desesperados, os frustrados e os apáticos. Isto porque a mudança do que foi para o que será, no campo da nova subjetividade, pressupõe que os maranhenses assumam a decisão de afirmar o que todos e cada um podem e devem fazer em favor do futuro desejado.

Prometer e cumprir passa a ser um exame de consciência diário e verdadeiro. Mudar a realidade significa implantar o reino do equilíbrio entre o que se promete, geralmente muito, e o que se cumpre, normalmente pouco. Impossível tomar o rumo do Maranhão nas mãos da sociedade sem o reino do equilíbrio. Uma das urgências no plano da mudança é o fortalecimento da tomada de decisões. Quando não se tem capacidade decisória, deixa-se de cumprir tudo que foi prometido. 

O Maranhão reinventado, o Maranhão mudado, a passagem do Estado de Um para o Estado de Todos guarda total correlação com a capacidade e com a eficácia diretiva do governo eleito e consagrado nas urnas de 2014, por representar as expectativas libertárias do povo maranhense. Se for capaz de atingir o coração do povo, devolvendo-lhe o poder negado quase sempre, aí sim a página será virada.

No mundo de hoje e no torrão maranhense em particular, o desafio dos desafios é governar, mesmo que o lugar do poder seja o trono. O poder público virou caricatura de interesses escusos e de mentiras. No Maranhão interiorizado, ainda provinciano e tímido, mais difícil ainda, pelo descaso histórico com as instituições, com as competências e o pouco valor atribuído à meritocracia. O Maranhão não é uma ilha; é um continente que não se comunica horizontalmente. Só um projeto de desenvolvimento continental tirará o Maranhão do sonambulismo. O Palácio dos leões precisa se transformar em castelos de todos os animais da floresta e do interior.

A herança do pacto pela não mudança não morreu completamente e nem perecerá de uma hora para outra, pois se manifesta nas castas familiares e nos micros poderes. Há uma crise política na sociedade brasileira que torna o seu sistema econômico capitalista disfuncional e faz emergir uma república mafiosa que intranquiliza os setores progressistas da sociedade, sobretudo por estimular golpes fatais na utopia, indispensável para a sobrevivência moral do Brasil como nação honrada e justa.

Decifra-me ou te devoro: eis o Maranhão a ser reinventado. Começar de novo, preferencialmente de mãos dadas com as legiões de esquecidos e excluídos dessa terra mágica. Convocar os abandonados pelas forças do elitismo. Chamar a juventude, as meninas e os meninos em cirandas de verdades e de fantasias. Deixar Brasília em seu canto e mergulhar no telúrico maranhense. Colocar os pés no chão, abrir picadas para o interior, adequar o palácio central aos desafios territoriais, criando uma rede de palácios em que o poder emana do povo. Mais do que tudo: lucidez, muita serenidade, ousadia e humildade para reconquistar a confiança e a crença do povo maranhense na capacidade e na eficácia diretiva do governo da esperança que acaba de chegar.





segunda-feira, 21 de abril de 2014

O IMPÉRIO DESPIDO


por Raimundo Palhano

                           Foram quase mil anos entre a queda do Império Romano ocidental, em 476 e a derrocada oriental, ocorrida em 1453. O maior de todos não escapou à ruína. Assim, o poder imperial que domina o Maranhão também chegará ao fim. Vive no presente mais um tremor em suas  bases, talvez o mais grave das últimas décadas.
                              A sequência de lances duvidosos e de erros gritantes cometidos pelo alto escalão frente ao jogo sucessório revela que a fadiga de poder chega às hostes do Grupo Sarney. Pode até não significar o fim do seu ciclo vital, mas indica que o reino está cambaleante, fora de rumo e sem inteligência para enfrentar a reação dos oponentes.
                              Os equívocos cometidos e os prováveis seguintes que virão só se tornarão eficazes na luta pela alternância de poder no Maranhão se a resistência oposicionista for competente no enfrentamento da crise de identidade instalada no núcleo de poder. O projeto dominante está saturado aos olhos do povo, que anseia e exige saídas concretas, sustentáveis e principalmente, confiáveis.
                              O que fez o Império Romano chegar ao ocaso foi a megalomania e o apetite insaciável pelo poder. Rômulo Augusto teve que abdicar forçado por Odoacro, um simples chefe germânico, considerado bárbaro não apenas por desconhecer o latim, como aplicado a todos, mas também pela ausência de virtudes superiores.
                              Teodósio e depois Rômulo Augusto foram destronados porque não tinham mais competência para enfrentar os problemas produzidos pelo gigantismo do Império: descontrole de preços, concentração de rendas, abuso de poder e, sobretudo, a ruptura da unidade cultural romana. Nos momentos finais do império romano, o império dos impérios, os próprios romanos abriram as portas aos que denominavam de “bárbaros inferiores”.
                              Em consagrada obra, Marshall Berman assevera que tudo que é sólido acaba desmanchando em função de circunstâncias incontornáveis. É rica a literatura internacional sobre as causas da decadência das grandes civilizações do passado e do ocaso inexorável dos poderosos. No Brasil o domínio dos poderosos também desmancha no ar, embora a ruína se processe de forma lenta, típica da formação social brasileira, centrada em uma elite dirigente parasitária.
                              No Maranhão os ciclos de dominação são mais longos ainda, motivado, sobretudo por questões culturais e educacionais, associadas ao isolamento geográfico e à conformação de sistemas oligárquicos fechados e impermeáveis. Os últimos acontecimentos do xadrez sucessório, que levaram a governadora do Maranhão a proclamar um “fico” lacônico e incontornável, demonstram que o império treme nas bases. A crise política assume proporções que ultrapassam a capacidade e o repertório de soluções a cargo dos governistas.
                              Os romanos perderam a confiança e a fé em Roma e capitularam da forma mais deplorável: optaram pela renúncia cívica a ter que suportar o peso de um poder imperial completamente extraviado, portanto incapaz de oferecer um projeto para o presente e para o futuro.
                              No mundo de hoje os poderes nacionais se fragilizam cada vez mais. Há uma ordem global econômica, militar e política que se encarrega de corroer a força das nações isoladamente. Os poderes locais no Brasil, dadas a permanência das desigualdades sociais, se fecham para durar. No entanto, o mundo está quase um só em matéria de comunicação e informação e isso enfraquece o poder das oligarquias regionais.
                              O fenômeno reforça a ideia de que o poder imperial no Maranhão caminha para o ocaso definitivo, ainda que de forma cadenciada. O Grupo não acabará de um dia para o outro. O ciclo da transição e sua velocidade dependerão da capacidade de tomar decisões das novas lideranças e do conteúdo intrínseco do novo projeto de direção política das forças que formam o contrapoder em andamento.
                              A ruina dos poderes absolutistas e dos seus impérios são de vários matizes, desde a simples fadiga pelo exercício do poder, passando por questões mais complexas de natureza política, ideológica, religiosos e culturais.
                              Como o império romano, que não desmanchou abruptamente, o poder das oligarquias maranhenses será minado aos poucos, manifestando-se sobretudo a partir do processo de deserção dos seus próprios aliados políticos. Provavelmente o poder do Grupo Sarney se extinguirá em silêncio, tanto pelo seu largo espectro, como pela desproporcionalidade de forças em disputa. À oposição lúcida vitórias em sequência já bastam, sem o que não minarão as sólidas bases de poder do Grupo, que se projeta e opera nos círculos dominantes do Brasil. É preciso entender que o “fico” de Roseana não esgotará a sua força política em apenas oito meses, e nem tampouco com a provável vitória da oposição no pleito de outubro.
                              Creio que uma das maiores urgências para um Maranhão Livre é devolver o poder ao povo e organizar o poder público na direção do desenvolvimento sustentável, que foram duas das mais importantes bandeiras do governo Jackson Lago, símbolo e vulto maior da resistência política maranhense, levado ao sacrifício por se contrapor ao sistema dominante.
                              Está aberto o desafio por um novo esforço de imaginação e de ação. O bem comum do povo, como ideia-força, assume um papel preponderante. Para que se corporifique, uma das saídas é instituir o novo planejamento, empoderado e autônomo, capaz de implementar a transformação social e política, em sintonia com as aspirações populares.
                              É urgente e impostergável assegurar o controle social sobre o orçamento público. Para que isso ocorra urge que se construa um novo municipalismo e um novo federalismo geoeconômico. Tudo isso para mudar a direção política do Estado. Tudo isso para que ocorra a supremacia da ética sobre a política e da política sobre a economia.
                              A longa estabilidade de quase cinquenta anos do reinado sarneysista no Maranhão foi quebrada de forma exemplar na primeira metade de 2004, motivada por conflitos de interesse envolvendo a então senadora Roseana Sarney, governadora do Estado por quatro mandatos e o então governador José Reinaldo Tavares. O gesto de Reinaldo foi a causa primária do abalo sísmico no mais poderoso, consistente e duradouro sistema  oligárquico da história do Maranhão.
                              Odoacro se chamava Flávio. No Maranhão dos tempos bárbaros a onda de esperança também se chama Flávio. Caberá presumivelmente a Dino a missão transcendental de liderar a construção da nova utopia maranhense. Os escombros do antigo regime precisam ser sepultados para sempre. Não será fácil superar um domínio descomunal. Reeditar práticas antigas por incapacidade de decidir certo sobre coisas erradas afundará os sonhos de alternância. É vital que se inicie o novo projeto banindo os egocentrismos, as prepotências e arrogâncias pessoais e coletivas.
                              Ao canto do cisne debilitado deverão soar trombetas de solidariedade, compaixão e de convite à ação transformadora. Anunciando cavalgadas cada vez mais numerosas, indo em galopes ousados nas pradarias que levam a se perder de vista a liberdade.

                              Odoacro, um rude chefe tribal, derrotou o Império convocando todos os insatisfeitos à luta. Cabe a Dino mirar-se nas lições da história e reunir humildade e sabedoria para liderar o desmanche do sistema de imposturas reinante.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

A REVELAÇÃO

por Raimundo Palhano

“O que eles não sabem, o que jamais aprenderão,
é que no meu lugar milhares se levantarão
para combater o atraso e a mentira...”
Jackson Lago

Em 257 páginas, organizadas e embelezadas por mãos de artesãos cuidadosos, que vão além dos cinzéis delicados de Jhonatan Almada, do engenho de Aziz Santos e tantos outros escultores da liberdade, o Instituto Jackson Lago – IJL acaba de publicar o livro Governo Jackson: O Legado, difundido quase que simultaneamente em Imperatriz e São Luís, no final de setembro de 2013, cidades que marcaram a vida pública do seu Patrono e Inspirador.

Na retaguarda e na linha de frente, ao mesmo tempo, a figura singular de Clay Lago, viúva do ex-governador e presidente do Instituto, responsável direta pela façanha de dar vida, em um prazo extremamente curto, a um projeto institucional de grande magnitude, difícil de concretizar em contextos como o maranhense, submetidos cotidianamente a desafios gigantescos nos aspectos políticos, sociais e econômicos. Passar a limpo a realidade maranhense e as suas circunstâncias, numa perspectiva de fomentar o contrapoder popular e democrático é algo dificílimo e enormemente penoso.

Nesses seus menos de dois anos de vida, o IJL já se encontra devidamente formalizado, com sede provisória bem estruturada; instituiu um padrão de funcionamento estável e regular da sua diretoria; manteve articulada a militância mais próxima e atrai novos parceiros; realizou debates públicos do mais alto nível, com personalidades como Marco Antonio Villa, João Pedro Stédile e Beatriz Bissio; publicou revista, livro e, principalmente, avançou no mapeamento do acervo documental, iconográfico e histórico a respeito da trajetória do Patrono, destacando-se a elaboração de um plano de ações estratégicas, que culminará com a inauguração, em prazo não muito distante, de um centro cultural à altura do Legado e das necessidades de desenvolvimento e emancipação político e cultural do povo maranhense.  

O livro sobre o Legado do governo Jackson Lago chega a tempo de evitar que se apague da memória coletiva a verdade da sua gestão à frente do Executivo. Em tempo algum da formação maranhense se tem conhecimento de uma orquestração política tão eficaz, voltada exclusiva e impiedosamente para apagar da memória do povo um período marcante da história política local. Igor Lago, filho aguerrido e zeloso guardião da obra do ex-governador, a esse respeito se posiciona na orelha do livro em referência, com toda a propriedade: “um governo plural tão combatido, mesmo antes de assumir; tão agredido e sabotado, durante; e, tão desdenhado, após seu fim...”

O Legado não é uma apologia infundada, nem muito menos um incenso apagado e indolor. A matéria-prima com a qual se nutre e fundamenta decorre das mais distintas latitudes de seu governo, produzida por atores sociais e políticos que vislumbraram ali a oportunidade de virar a página da história, em uma sociedade dominada por senhores e coronéis.

Não se trata de um relatório administrativo puro e simples. O Legado deve ser lido como uma carta de navegação, como um relatório de viagem rumo a um Maranhão desejado por legiões de maranhenses que, em distintos tempos existenciais, sonharam com a mudança de um modelo de sociedade que favoreceu apenas aos seus mandatários e donatários.

É um mergulho no mar dos Sargaços, com todo o seu simbolismo e dualidade. Se para os antigos navegantes aquele mar acolhia bestas marinhas e monstros assustadores, que se moviam lentamente entre as embarcações dos navegantes; para outros, felizmente, é também a vitória da ousadia de um timoneiro, seja Colombo, seja Jackson, que abriu as portas do Novo Mundo, singrando um mar tenebroso e sem vento.

Como toda carta de navegação requer do navegante que penetre nas entranhas do mapa. Com toda certeza encontrará, aqui e ali, fantasmas e sonhos, natural quando se busca reinventar uma sociedade pisoteada em sua dignidade humana ao longo dos tempos.

Depois do Legado, por mais insanos que sejam os detratores, não se poderá mais dizer que nada foi feito pelo Governo Jackson. Não se poderá mais acusá-lo de incompetência e omissão, mesmo sob a mais feroz das críticas.


Se inconformados ainda houver, mesmo dentre aqueles que merecem todo o respeito pela honestidade intelectual, o livro registra a trajetória de um político único e exemplar que resistiu bravamente e lutou até a morte por suas crenças e devoção ao povo da sua terra. Por tudo isso é uma obra para hoje e para a posteridade.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

BOM DIA, VICTOR ASSELIN,

por Raimundo Palhano


Recebo, com muito pesar, o comunicado de sua viagem. Viagens sem volta são sempre sofridas. Fiquei abatido e tomado de saudades. Por isso demorei a responder ao seu e-mail.

Difícil dizer alguma coisa quando pessoas como Você decidem queimar os navios e partir. Você deixa um grande vazio em nosso meio e no coração dos que desfrutaram de sua presença. Muita gente da minha e de tantas outras gerações de maranhenses receberam sua influência benfazeja.

Dê-nos um sinal sobre o seu esconderijo. Sei que Você se misturou à terra, à água e ao fogo e continua construindo esperanças celestiais. Mesmo que não queira passar o seu novo e-mail, peça-o emprestado a um dos seus anjos e não deixe de me enviar suas inspiradas mensagens. Tenho todas as que me enviou ultimamente arquivadas, e sempre as leio para escapar dos momentos de solidão e dos desassossegos.

As coisas estão viradas e virando por aqui. Vamos precisar muito de sua coragem e destemor. Não é fácil mudar os desequilíbrios sociais em contextos marcados por costumes arraigados e padrões culturais cristalizados e elitistas.

A realidade em volta da esfera política parece ser uma conspiração contra a dignidade humana. O rebanho está desgarrado e caminhando em direções incertas e perigosas. Impossível atravessar o rubicão sem enfrentar e vencer caminhos tortuosos e procelas devastadoras. O sinal está fechado, as saídas nebulosas e a bússola dos caminhantes perdeu o magnetismo.

Continuo acreditando na beleza, na bondade e no bem, a despeito dos pesadelos mais frequentes. Sobre a possibilidade de uma sociedade justa e boa para todos tenho feito um esforço incomum para não desistir de acreditar. Creio também que para alcançar tudo isso é preciso muita fé e coragem, muito carisma, muita mística, como Você gostava de dizer.

Aí do alto, ou do ventre da terra, seria importante que Você escrevesse mais um livro para os muitos que temem verem suas crenças e sonhos serem grilados, subsumidos aos apetites do comércio de mercadorias.

Conheci o Canadá, seu lindo país, faz anos. Tinha interesse em visitar a terra de missionários canadenses excepcionais, pelo muito que fizeram, por décadas, pelo Maranhão e seu povo mais despossuído, com os quis nutri admiração e amizade.

Posso afirmar que nesse tempo todo se construiu um verdadeiro e singular encontro de civilizações, tendo sido Você, sem a menor dúvida, a maior e mais fecunda fonte de inspiração e o maior e mais efetivo exemplo de resistência, perseverança e luta.

Termino aqui o meu lamento e recomeço agora a minha esperança na ressurreição de sua mística em favor da educação e da libertação do povo maranhense.

Peço-lhe, por fim, que não deixe de me enviar aqueles e-mails surpreendentemente ternos e carregados de coragem que Você me enviava, mesmo sabendo que a hora da partida havia soado.


Com todo o meu carinho e afeto.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O FIM DO MARANHÃO


(Para não esquecer Jackson Lago e o Golpe de 17 de Abril de 2009)

por Raimundo Palhano

Já era a madrugada do dia seguinte à cassação e o sono me faltava. Sendo abril, o vento permanecia escasso. Havia desconforto fora e dentro dos meus pensamentos. As imagens da dura realidade não me abandonavam. Vi-me em São Paulo, diante da internet, buscando notícias sobre a posse de Rosa, a nova governadora.

Na medida em que as lembranças me vinham chegando era como se estivessem me transportando em um túnel do tempo, a um lugar que me apavorava. Vi fantasmas saindo do sepulcro e dândis impecáveis surgindo entre os poros do tempo para celebrar o retorno da princesa.

Mais perplexo fiquei ao tomar conhecimento dos seus dois primeiros atos administrativos: o primeiro, mudando em definitivo o nome do Maranhão para Marderosas, lei esta que já havia sido promulgada em 1966 pelo Chefe do Clã; e o segundo, retirando do seu próprio nome o gentílico Alexei.

Rosa, a guerreira, vinha de fato predestinada a decretar o fim do Estado da Mentira e extirpar do seu próprio nome o que soava falso e duvidoso. Com sua espada invencível, forjada em um sem número de batalhas espetaculares, como anunciavam as suas trombetas, e usando uma nova máscara de zorro, de um só golpe, decretava a morte de uma província que já não prestava para nada e instituía o seu próprio reinado, procurando convencer aos súditos que dispensara a proteção do Rei, pai e guardião de toda hora, então sob fogo cerrado e fortíssimos ataques da mídia nacional.

        Para alguém como eu, que havia retirado um órgão precioso do corpo e estava ali na paulicéia para ver se os outros estavam em ordem, ler aquelas notícias foi como levar mais um soco no estômago, agora muito mais dolorido, pois ainda estava com as marcas vivas das costuras cirúrgicas.

Na cabeça de Rosa a solução dos problemas maranhenses finalmente estava dada: apeado do trono JL, ficara mais fácil decretar, agora para valer, o fim do Maranhão, pondo em seu lugar Marderosas.

Vi aparecerem em minha frente aqueles bonecões da Rosailude, muito usados pelo movimento balaiada em seus atos de protesto e vigília cívica em frente ao palácio do governo, durante o processo de julgamento de JL pelo Tribunal Superior Eleitoral de Brasília.

        Levantei-me da cama às quatro da madrugada e fui à janela. As ruas que me saltavam aos olhos estavam desertas, preenchidas apenas pelos silenciosos motores dos poucos veículos insones que cruzavam suas artérias. Do sexto andar do meu prédio ouvia a ritmada cadência da maré e notava as luzes apagadas dos edifícios do bairro.

Vendo aquele cenário cheguei mesmo a admitir que o Maranhão havia acabado e que eu estava realmente em Marderosas: tudo parecia falsamente harmonioso, o silêncio sem alarme e alma, as linhas de uma arquitetura cristalizada ou em decomposição.

Aos poucos fui percebendo que o cansaço físico estava me deixando fora do contexto. Precisava imediatamente de um travesseiro para dormir o pouco da noite que ainda restava. Fechei os olhos e com medo de novos pesadelos e da escuridão, adormeci por quatro anos.        
                                           


sexta-feira, 31 de agosto de 2012

SABBAS DA COSTA E AS CIRCUNSTÂNCIAS DA HISTÓRIA SOCIAL DO MARANHÃO


(Proferido por Raimundo Palhano, titular da Cadeira 39,
ao tomar posse no IHGM, em 27/08/2012)

ABERTURA. A cerimônia inaugural solicita do novo sócio, em seu discurso de posse, pelo menos a evidenciação de dois requisitos básicos: realizar, com o melhor dos fôlegos, o elogio ao Patrono, cuja cadeira ocupará ao ser empossado; e explicitar o seu agradecimento pela distinção, na forma de como pretende colaborar para o desenvolvimento do Sodalício.
  
Para atender a tais requisitos é necessário perscrutar a vida e a obra do Patrono, no caso Francisco Gaudêncio Sabbas da Costa, de preferência nas suas mais variadas latitudes e circunstâncias humanas, dentro dos limites inerentes a uma solenidade de posse acadêmica.

Proclamo, de imediato, a minha alegria, desvanecimento e honra de passar a integrar o IHGM. Unir-se a uma Agremiação que fará em 20 de novembro próximo 87 anos de existência reconhecida na história cultural maranhense é uma honra muito grande, sobretudo pelo expressivo repertório de feitos em favor do conhecimento científico, nos campos da História e da Geografia do Maranhão.

Em seu Estatuto estão presentes os compromissos com a Memória e com a História do Maranhão e do País. No primeiro plano, a guarda de acervos documentais, a preservação do patrimônio histórico e cultural e a divulgação do esforço feito pelo Instituto para o cumprimento de sua missão. No segundo, o lugar da História, expresso nos desafios de conhecer e traduzir a dinâmica da formação social maranhense, suas especificidades, peculiaridades e complexidades desafiadoras.

A CONTRIBUIÇÃO INTELECTUAL DE SABBAS DA COSTA. O elogio ao Patrono procurarei fazê-lo de forma refletida, sobretudo empenhado em estabelecer um diálogo respeitoso e crítico com o legado deixado como herança por Francisco Gaudêncio Sabbas da Costa, pouco conhecido das gerações atuais, patrono da Cadeira 39, que agora, com muita honra e responsabilidade, passo a ocupar.

Motiva-me, sobretudo o desejo de situar historicamente a sua contribuição intelectual no contexto maranhense e, em especial, a sua relevância intrínseca, nas dimensões em que teve atuação destacada, principalmente no jornalismo e na literatura, nesta última atuando como cronista, romancista, dramaturgo e crítico teatral.

Nascido em São Luís, no dia 25 de novembro do ano de 1829, e aqui falecido, em outubro de 1874, o escritor não teve vida longa, tendo perecido ainda jovem, aos 45 anos.

Sobre a sua genealogia e biografia pessoal apresento um rápido perfil, começando pelo fato conhecido de ter desposado a soprano italiana Margarida Pinelli Sachero, prima-donna da Companhia Lírica Marinangelli, da Itália. Nessa época, meados do século XIX, vinham da Europa para São Luís muitas companhias líricas, óperas, entre outras, com seus sopranos, prima-donnas e barítonos. Margarida era casada com Melchior Sachero, tenor italiano que faleceu em Belém, vítima de febre amarela, após temporada em São Luís, cidade onde Margarida conhecera Sabbas e fizera amizades, vindo então ali se radicar em decorrência do matrimônio com o teatrólogo maranhense.

Sabe-se pouco sobre a trajetória profissional de Sabbas da Costa, além de suas atividades artísticas nas áreas da literatura e do jornalismo. Outro fato conhecido é que foi conferente nas Alfândegas de São Luís e Belém e que pertencera ao tronco familiar do português João Gualberto da Costa, conforme César Marques.

Nascido em Lisboa em 1793, de ascendência nobre, João Gualberto instalou a primeira fábrica a vapor, de beneficiar arroz, no Maranhão, em 1817, denominada Feliz Empresa. Gualberto é considerado o primeiro industrial “adiantado” do Maranhão. Em 1848 o seu irmão Francisco Gaudêncio da Costa entra para sócio do empreendimento.

Outra atividade de Sabbas da Costa, no campo empresarial, refere-se à sua participação em Exposições mercantis. É conhecido o fato de o Maranhão ter se destacado na realização de Exposições. As primeiras Exposições Universais foram as de Londres(1851 e 1862) e Paris(1855 e 1867). A Exposição do Maranhão realizou-se em 1871, denominada Festa Popular do Trabalho. O Patrono figura como um dos promotores da Exposição maranhense. A primeira Exposição Nacional só viria a acontecer em 1896.

Sabbas integrou o primeiro Grupo Maranhense, cujo recorte temporal correspondeu ao período de 1832-1868, tendo o Romantismo como princípio estético. Dele fizeram parte os principais ícones da nova elite cultural local: Gonçalves Dias, Odorico Mendes, João Lisboa, Sotero dos Reis, Trajano Galvão, Belarmino de Matos, Sousândrade, Gentil Braga, Gomes de Sousa, Henriques Leal, César Marques, Candido Mendes, entre outros.

Os Grupos iniciais tinham como características o fato de boa parte de seus representantes terem estudado fora. No país; em Salvador, Recife e Olinda e, na Europa; especialmente, em Lisboa, Coimbra, Paris e Londres, por isso tendo também, por bom tempo, os referidos representantes morado fora da Província.

Fez parte, como posto em evidência, do mais expressivo ciclo literário e cultural do Maranhão, responsável pela constituição de uma plêiade de homens de letras e intelectuais sem similar em sua história social, independentemente do valor que se possa atribuir ao legado deixado como herança.

Levantamentos, ainda incompletos, sobre a produção intelectual de Sabbas da Costa revelam as seguintes obras, tidas como as principais de sua lavra: (1)Francisco II ou a Liberdade na Itália, drama em 5 atos, 1861(1881); (2)Pedro V ou o Moço Velho, drama em 5 atos, 1862; (3)A Buena-Dicha, comédia em 2 atos, prólogo e epílogo, 1862; (4)O Escritor Público, comédia em 1 ato, 1862; (5)Garibaldi ou o seu Primeiro Amor(6)O Barão de Oyapock, drama em 3 atos e prólogo, 1863; (7)Beckman, drama histórico em 7 atos, 1866; (8)Anjo do Mal, drama, 1867; (9)Os Bacharéis, comédia em 3 atos, 1870; (10)O Amor Fatal, (11)Rosina, romance; (12)Revolta, romance histórico; (13)Os Amigos, romance, em 25 capítulos; (14)Jovita, novela, em 3 capítulos; (15)Jacy A Lenda Maranhense, esboço de romance, em 14 capítulos.

Outras obras publicadas em jornais da época também podem ser destacadas: (a)O Encontro; (b)Teatro de São Luís; (c)Como Nasce o Amor; (d)Simão Oceano; (e)A Madrugada; (f)Maria do Coração de Jesus; (g)O Baile; (h)O Dote; (i)O Adeus; (j)Não Brinques; (k)Sinfrônio; (l)O Homem do Mal; e (m)Encontro de Ronda com a Justiça; entre as que foram possível mapear.

A produção literária de sua autoria mais conhecida destaca as obras Jacy, a respeito do extermínio de índios e suas lutas contra os opressores, principalmente os proprietários rurais; o romance Jovita, sobre uma jovem cearense que se inscreve no antigo Batalhão dos Voluntários do Piauí; o romance Os Amigos, que alguns também classificam como crônicas, nas quais aborda a situação do comércio, das casas de alimentação, suas leituras preferidas e aspectos da vida cultural maranhense.

O drama Francisco II foi impresso em 1861, pela Tipografia Frias, uma das mais importantes da Província. Já no ano seguinte, Sabbas publica o drama D. Pedro V ou o Moço Velho. Em seguida, edita também duas outras obras, as comédias Escritor Público e A Buena-Dicha.

Alguns anos depois, a Tipografia de Belarmino de Matos imprime duas de sua peças, no caso Barão do Oyapock e Garibaldi ou o seu Primeiro Amor. Barão do Oyapock trata dos conflitos de um homem de baixa condição social, que enriquece graças a um assassinato, roubos e outros crimes. Conseguiu ascender posições na escala social sem, contudo, introjetar em seu caráter sentimentos superiores. O seu filho, em razão disso, vivia em permanente tormento. Toda a ação gira em torno de um juiz corrupto e de um escravo revoltado que consegue envenenar o Barão. Os detalhes da descrição dos fatos levaram a critica da época, em tom irônico, a lamentar que o Autor não se tivesse filiado à escola Realista, então muito em evidência, dada a crueza da narrativa.

Foi colaborador em A Casca da Caneleira, figurando, sob o pseudônimo de Golodron de Bivac, como um dos onze autores da obra, em 13 capítulos, todos os autores vinculados à escola Romântica, que também recorreram a pseudônimos. Trata-se de uma novela coletiva maranhense, ou, para os autores, uma escrita para puro divertimento, um passatempo literário. Joaquim Serra e Gentil Braga, figuras respeitadas como folhetinistas, escreveram sob os pseudônimos de Pietro de Castellamares e Flávio Reimar, respectivamente.

Boa parte da obra do Patrono foi publicada pelo Semanário Maranhense, periódico que, nos seus 54 números, divulgou a cultura maranhense, tendo como colaboradores quadros como Antonio Henriques Leal, Celso Magalhães, César Marques, Gentil Homem Almeida Braga, Joaquim Sousândrade, Joaquim Serra, Pedro Nunes Leal, Teófilo Dias,  e outros tantos, todos notabilizados pela contribuição literária e cultural deixada para a posteridade.

Para parte da crítica Sabbas foi um dos primeiros a introduzir o interesse pela literatura folhetinesca, como vinha acontecendo no Rio de Janeiro. Por isso, alguns epígonos o classificam como o fundador da novelística na Província, pois os outros prosadores de ficção virão somente após ele, sendo Gonçalves Dias a única exceção, posto que desde 1842 trabalhava na produção da sua Memórias de Agapito. Não há, todavia consenso sobre isso. Críticos há que não enxergam em Sabbas tal pioneirismo, pois consideram menor o valor de sua obra literária no aludido gênero. O romance Os Amigos, com 25 capítulos e a novela Jovita, com apenas 3 capítulos, são as obras que levaram Sabbas à condição de fundador da novelística e do folhetim na Província.  

Publicou novelas, folhetins e história do Teatro São Luís, mesmo dividindo opiniões entre os que apreciavam a sua arte e os que não o faziam. O drama de sua autoria Anjo do Mal foi elogiado por Joaquim Serra. Quem escrevia peças então eram Joaquim Serra, Gentil Homem, Celso Magalhães, Euclides Faria, Artur e Aluísio Azevedo, João Afonso Nascimento. Isto em meados do século XIX.

Deve-se destacar, por oportuno, que Sabbas da Costa era também um dos que escreviam no Jornal de Timon(1852-1855), de João Francisco Lisboa, publicado pela Tipografia de Belarmino de Matos.

A marca destacada de sua biografia intelectual liga-se ao teatro. Foi um dos precursores do teatro maranhense, antes de Artur Azevedo. Sua obra, no campo da dramaturgia, é das mais copiosas, incluindo-se aqui o seu trabalho de crítico teatral e animador cultural.

Percebe-se no Autor uma peculiar identificação com a dramaturgia grega, pois seus textos parecem nitidamente escritos para serem representados por atores. Drama é uma palavra grega que significa ação, representação da ação. Tanto na tragédia, na comédia, no melodrama ou na farsa, para os gregos clássicos, o centro da ação é o conflito. Sua obra não escapa dessa influência. Os dramas produzidos por Sabbas ajudaram a reforçar a predileção local por peças altamente dramáticas e fortemente sentimentais.

Nos meios culturais locais, em especial no ambiente teatral, vivia-se o apogeu do Melodrama, começando pelo romantismo de fundo burguês. Convém lembrar que até 1847 os jornais eram omissos em assuntos de arte e dramaturgia: se limitavam a temas políticos e a publicação de atos governamentais. A partir da segunda metade dos anos mil e oitocentos a situação já estava completamente mudada. Espetáculos teatrais de caráter lúdico-religioso, sacro, comédias despontam no cenário artístico.

Contribuição do Patrono à Cultura Maranhense
É pertinente a afirmação de que o mundo intelectual e literário maranhense no século XIX deveu muito aos periódicos e ao parque gráfico existente. Permitiram o escoamento da produção literária da Província, muitas de padrão discutível, diga-se, estimulada pela riqueza material de suas elites sociais e econômicas, e pelo investimento feito no refinamento educacional de seus descendentes.

Convém destacar que até 1870 no Maranhão e no Brasil de um modo geral, o livro ainda não era o meio mais eficaz de difusão da cultura letrada. Os valores do processo civilizatório e a inculcação de tradições locais dependiam fortemente dos jornais e periódicos locais.

Percebe-se assim que o modelo literário maranhense decorreu da fusão do jornalismo, principalmente político, com as letras e seus profissionais. Um jornalismo voltado para o cultivo das belas letras, sempre destacando a distinção cultural da Província. Colocava à disposição dos leitores contos, novelas, artigos historiográficos e econômicos, estes mais raramente; poemas, crônicas, crítica literária, preleções, cursos, entre outros. Traziam à luz a literatura e as ideias que circulavam, sobretudo em Portugal e na Europa. Deles emergiram o gosto literário, artístico e cultural-científico, além da simpatia pelo mundanismo. Não eram apenas espaços para o debate de questões políticas. Os periódicos maranhenses tentaram de toda maneira produzir um discurso de exaltação da inteligência local, na perspectiva de tornar-se contribuinte destacado no processo de construção da identidade e da cultura nacional, a partir da distinção cultural da Província.

Além disso, outras variantes devem ser levadas em conta na definição desse pano de fundo histórico. No plano da formação social, o Maranhão do século XIX era heteronômico, recebendo de outrem as leis e procedimentos a serem seguidos; e exogênico, sendo uma sociedade originada e dependente de fatores externos. A exogenia não se limitava apenas à dependência ao mundo exterior. Do exterior provinham também as ideias com as quais se abastecia, traço este ainda presente na cultura local. Essa situação se agravava mais ainda pela instabilidade política. Ao longo dos 48 anos que vão de 1841 a 1889 estiveram à frente do governo, entre governadores e vices, quase cem mandatários.

Vivia-se nitidamente o processo de construção de uma nova ordem social e política. Estavam em franca germinação as novas instituições sociais e políticas, associadas à constituição de uma nova camada dirigente e seus valores instituintes.

Francisco Gaudêncio Sabbas da Costa e sua obra são produtos dessas circunstâncias materiais e subjetivas. Os aspectos constitutivos da ideologia dominante estão presentes em seus dramas, novelas, folhetins, crônicas e críticas teatrais. Em todas prevalecem a visão de mundo das elites, a pura e simples transposição da ideia do romantismo e do parnasianismo como alternativas à industrialização europeia; o naturalismo, o realismo. Em todos os lugares de sua contribuição a forte e fluente presença de uma construção intelectual e literária baseada, flagrantemente, na importação ideológica e cultural.

Esse traço não diminui ou distingue a contribuição intelectual de Sabbas. Era comum no ambiente cultural e literário da época, sendo poucos aqueles que de fato erigiram um obra própria e diferenciada. O que interessa vai além de tudo isso: é qualificar em sua obra as linhas de contribuição para a formação social do Maranhão e para as instituições culturais gestadas. No caso específico de Sabbas destaca-se, sobretudo a sua contribuição no campo das artes e das letras, muito mais que na área de interesse do Instituto Histórico e Geográfico, ou seja, os campos dos estudos e dos conhecimentos científicos propriamente ditos.

Em seu afamado livro Sessenta Anos de Jornalismo, 2ª Edição, publicado em 1883 por Faro e Lino Editores, no Rio de Janeiro, Joaquim Serra destaca as principais virtudes de Sabbas da Costa. No capítulo sobre o ano de 1860 evidencia a contribuição do Autor no periódico Marmotinha, de José Mathias Alves Serrão. Um periódico de variedades que publicava artigos amenos, jocosos, crônicas locais e poesia. Serra, um jornalista rigoroso para os padrões existentes, descreve Sabbas como um infatigável trabalhador da cultura e das letras, colaborador assíduo de vários jornais e periódicos, nos quais se dedicava especialmente à crítica teatral, sem esquecer-se de destacar os romances que publicava em folhetins e depois em livros. Como bom agitador cultural e infatigável trabalhador das letras que o era, Sabbas nunca foi considerado, todavia uma unanimidade pela crítica.

Em sua expressão maior, a crítica destaca como uma das mais consistentes contribuições de Sabbas o romance Os Amigos. Mesmo permanecendo a dúvida quanto ao valor literário da obra, destaca a sua importância pelas informações que reúne sobre a sociedade maranhense à época, sendo apontado como um vigoroso retrato da vida maranhense no século XIX, no que também se presta, possivelmente, para legitimar a condição de Patrono de uma cadeira no IHGM.

Para escrever com mais segurança e conhecimento de causa o presente Elogio procurei também ler o máximo que pude partes da obra acessível do Autor, com o objetivo de formar um juízo mais pessoal sobre a mesma. Em Jacy, por exemplo, é claramente perceptível o seu propósito em mostrar que era “brasileiro” e que escrevia sobre o que seria a “cor maranhense”, ou seja, sobre as especificidades do que é inteiramente local. Um texto plenamente ufanista sobre o Maranhão e o Brasil, no qual se encantava com a imensidão de uma natureza santa e imaculada. Em sua narrativa a Província do Maranhão nada mais era do que “uma terra majestosa, sublime e amena...um prodigioso recanto do Brasil”.

Em muitos dos seus textos é marcante o grau de detalhamento que emprega em suas narrativas. Em obras dramáticas, os conflitos são trabalhados com extremada minucia. O estatuto da escravidão e a visão do colonizador não são criticados explicitamente; ao contrário, são constantemente legitimados na composição dos tipos que formam a sua literatura. O poder do Senhorio reina absoluto e é tratado com naturalidade. O detalhamento dos conflitos contribuem muito para que se tenha uma visão precisa dos costumes, juízos de valor e preconceitos presentes na sociedade inclusiva.

O dilema de Sabbas e de toda a sua geração, fonte primária do semióforo inventado de um Maranhão culto como os gregos clássicos, é não terem dado conta das questões que cindiam a sociedade maranhense oitocentista.
Alheios a essas questões, atravessadas longitudinalmente pela tirania deprimente da escravidão de negros africanos, habitavam olimpos e parnasos imaginários, completamente distantes das pulsações de uma formação social em mutação e desconstrução.

Foram poucos os que perceberam esse processo e se lançaram na ousadia de imaginar uma formação maranhense que pusesse fim às hetenomias e exogenias originais. As vozes de João Lisboa e Joaquim Serra foram fracas frente à algazarra dos poetas do Olimpo. Mesmo a grandiosa plêiade de notáveis de então, como Dias, Odorico, Lisboa, Sotero, Souzandrade na literatura e Gomes de Souza e Custódio Serrão nas ciências, não farão a ruptura com os mecanismos de invasão cultural e importação ideológica.
Fragmentos do reacionarismo não desaparecerão facilmente, assim como a predominância de recorrências filosóficas flagrantemente piegas não deixarão de existir, provavelmente fatores retardatários da introdução modernista no Maranhão contemporâneo, inviabilizadoras do desabrochar local de um 1922 maranhense que não houve.

As visões estéticas presentes no legado e no acervo cultural erudito maranhense ainda hoje suscitam dúvidas quanto à autenticidade “nacional” e contextual.

EM QUE ESPERO CONTRIBUIR. Almejo corresponder à generosidade de terem me escolhido para compor os quadros desta Casa. Cheguei aqui por obra do acaso, ao ser convidado a queima roupa pelo Professor Josemar Raposo, em evento literário, nos pátios do Palácio Cristo Rei, relacionado ao lançamento de obra autoral de Aldy Mello de Araújo, agora confrade.

Generosidade que prossegue e se expande no acolhimento da Presidente Telma Bonifácio Reinaldo aos pareceres favoráveis das confreiras Dilercy Adler e Madalena Neves, conhecidas por terem corações bem maiores que o permitido, projetados finalmente na homologação das ilustradas e ilustrados confreiras e confrades que atualmente dão vida a esta valorosa Instituição.

Confesso o grande esforço que fiz para, em menos de seis meses, conhecer e me apresentar a Sabbas da Costa. Tomaram-me quase o tempo todo para que produzisse essa pequena homenagem, restando assim quase nenhum tempo para os encômios a Luís Alfredo Neto Guterres Soares, primeiro ocupante da Cadeira 39, na condição de sócio honorário, a mesma que passo a assumir agora, como fundador, decorrência da condição de Sócio Efetivo. Prometo também saldar essa dívida mais adiante, pois se trata de um estudioso da cultura e da realidade maranhense de grande valor, não cabendo assim quaisquer apreciações aligeiradas.

O precocemente esquecido Olavo Correia Lima, um polemista nato, afirmava que a história maranhense era uma das mais descuradas do Brasil. Achava que dela pouco caso se fazia. A ideia do maranhense culto decorre de um mito deliberadamente inventado, no bojo de uma suposta ancestralidade francesa. A luta contra um passado imemorial que ainda hoje serve para reforçar mitos e estereótipos não deve ser descurada jamais, cabendo a este Instituto um papel proeminente nesse enfrentamento.

Por força do descaso inexplicável do Maranhão com a sua história pensa-se, de modo geral, que se trata de um processo histórico linear. O desprezo com o patrimônio arqueológico pré-colonial é indescritível. Existem escavações no Maranhão que remontam a nove mil anos. Há um patrimônio arqueológico e antropológico pré-colonial da Ilha e demais territórios que precisa ser pesquisado e traduzido amplamente.

É mais do que urgente que se incentivem releituras da historia maranhense, sendo imprescindíveis para tanto a força de instituições vivas como universidades, institutos de pesquisa e de Institutos como o nosso. No surpreendente torrão maranhense gestou-se um fenômeno extraordinário, que ainda hoje continua pedido para ser revirado de cabeça para baixo e passado a limpo: como foi possível, em uma sociedade de analfabetos e excluídos, se implantar um “Olimpo intelectual” com bagagem tão vasta, sofisticada e variada?

Provavelmente a explicação da egossintonia que ainda hoje predomina na sociedade tenha origem nesse paradoxo secular. Por que a maioria aceita passivamente as desigualdades sociais, a falta de educação, a falta de ética, a falta de equidade?  Como se explica uma Atenas indiferente ante o que foi a maior das infâmias da história nacional: o genocídio de milhões de índios e de negros africanos torturados e escravizados?

Precisam-se construir novas subjetividades democráticas para uma melhor adequação ao mundo da diversidade que hoje impera. Não é mais possível repetir a façanha histórica ocorrida no período oitocentista de se erigir uma cultura tida como superior, pela erudição dos seus agentes, deixando de fora os dois principais temas do século XIX: a abolição e a democracia. Com toda a certeza, desse fato é possível encontrar as raízes históricas do atraso política, pois essa realidade produziu, entre outras coisas, um eleitorado incapacitado ao exercício do seu papel político, realidade ainda não superada, pois, ainda hoje, continua assombrando a sociedade atual.

No diálogo que foi mantido com Francisco Gaudêncio Sabbas da Costa, percebeu-se facilmente que em sua obra e na de seus contemporâneos, faltou um olhar atento para perceber as distinções entre o processo de invasão cultural e o processo de transmissão cultural. O esforço de Sabbas em demonstrar que era brasileiro e que seus personagens refletiam a cultura local denotam isso.

O Maranhão era português, demorou a aderir à independência e tinha em São Luís uma influente colônia lusitana, que controlava a economia, por meio do comércio. Esses vínculos orgânicos não se romperam com a Independência facilmente. Os habitantes da Província não passavam de meros espectadores do suposto mundo civilizado, sobretudo em relação à Europa e Portugal. O fenômeno da “portugalização” foi determinante no Maranhão. Orgulhavam-se as elites, em pleno final do século XIX, de terem sido colonizadas por europeus. Um despautério, na visão de alguns. São Luís nunca perdeu a condição de “arrabalde da américa”, e o Maranhão sempre foi uma “rochela de Portugal”, expressões de Antonio Vieira cunhada em meados do século XVII.

Por isso é forte a figura do redentorismo no Maranhão. A atemporalidade da história do Maranhão sempre foi a forma preferida da narrativa dos dominantes. É uma história “para sempre”. Para seus cultuadores, a melhor forma de preservar a memória maranhense é encher o Maranhão de estátuas. Ainda hoje as interpretações sobre a história do Maranhão continuam atreladas a esse pretensioso pensamento intelectual.

Era secundário o interesse em buscar entender as condições do espaço social maranhense e os seus desafios.

Diante dessas reflexões finais surgem-me à frente as palavras amargas e, ao mesmo tempo, verdadeiras e esperançosas de Eduardo Galeano a respeito da América Latina: “somos caricaturas de modos de vida que nos impuseram e impõem de fora”. Nessa mesma linha, interpretando o Brasil e os seus dilemas, Milton Santos afirmava, com muita propriedade: “ainda não descobrimos as formas de pensar a partir do nosso modo de ser”.

Todos os que formam esta Casa sabem e conhecem melhor do que eu os dilemas e desafios aqui levantados. Espero fazer parte dessa constelação e oferecer o melhor do meu trabalho.

Uma última palavra, antes de encerrar e agradecer pela resignação com que me ouviram. Acredito firmemente, inspirando-me em Hanna Arendt, que não nascemos apenas para morrer. Nascemos para recomeçar. Sei também, conforme o célebre poema-epitáfio de Jorge Luis Borges, que desde o nascimento “já somos a ausência que seremos”. O que não sei ainda é se seremos capazes de mudar o destino. Continuo acreditando, apesar de tudo.

Arlete Machado, em momento de sublime inspiração, descreveu São Luís como uma ilha que se desfaz em salitre. Espero, do mais profundo dos meus sentimentos, que essa ameaça cruel não atinja os corações e mentes daqueles que lutam pela reinvenção das bases constitutivas da história maranhense, afastando para bem longe a ferrugem que decompôs as representações sobre o passado do Maranhão, mas que ainda hoje sobrevivem como caricaturas assustadoras em nossa realidade.

Muito obrigado!