sexta-feira, 23 de novembro de 2018

PONTO DE VISTA SOBRE O IEMA: UM EXEMPLO DE QUALIDADE EDUCACIONAL CENTRADA NO PROTAGONISMO ESTUDANTIL



Raimundo Palhano


Antes de tudo, deixo claro que considero o IEMA a mais relevante e adequada iniciativa de política pública educacional ocorrida no Maranhão nas últimas décadas, que, de tão surpreendente e inovadora que é, ainda hoje, quase no fim do Governo Flávio Dino (2015-18), seu instituidor, ainda não foi assimilada plenamente pelos maranhenses, e, até mesmo, por alguns setores do próprio governo, já acostumados e, de certo modo, conformados com a repetição de uma história antiga de fracassos na área da educação pública.

O IEMA acaba de ser incluído no Programa de Escolas Associadas (PEA) da UNESCO, feito ímpar entre as escolas públicas maranhenses em todos os tempos; e, para coroar, seus estudantes alcançaram o melhor desempenho na Olímpiada Brasileira de Geografia e Ciências da Terra, tendo 98 equipes premiadas dentre as 128 do Maranhão, uma verdadeira chuva de ouros, pratas e bronzes, feitos estes que reforçam um padrão de desempenho institucional e de conquistas relevantes de seus estudantes, professores e dirigentes, obtidos em menos de 4 anos de existência temporal.

Isto posto, começo agradecendo pela oportunidade de fazer mais um exercício de análise crítica sobre a trajetória desta instituição estratégica para o desenvolvimento da educação maranhense e do próprio Estado do Maranhão.

Inicio perguntando: quais seriam os principais eixos estratégicos para expansão do IEMA? Em tal contexto, por que o Protagonismo Juvenil, o dos estudantes, é importante?

Entendo que os eixos estratégicos para a expansão do IEMA são aqueles capazes de estimular o crescimento sustentável da Instituição. Sintetizo afirmando que seria tudo que produzisse o crescimento do projeto pedagógico com qualidade. Aponto o bom planejamento e a boa gestão democrática, geral e setorial; a adequação do Plano de Desenvolvimento Institucional e dos demais planos estruturantes daí decorrentes; a qualificação e envolvimento efetivo dos professores, técnicos e administrativos, a participação das famílias, a integração ao meio, existência de infraestura física, material e de equipamentos, recursos financeiros para garantir o funcionamento organizacional, entre outros, culminando com o recurso primordial, o que diz respeito ao protagonismo do estudante, razão de ser de todo o processo de desenvolvimento da instituição educacional. A centralidade do estudante em todo e qualquer processo educacional é inquestionável em toda a história da educação formal de qualidade no mundo todo.

Com efeito, o protagonismo, em termos conceptuais, é uma práxis, um agir que faz sentido, que possui um rumo. Não é mero ativismo, um esforço muscular nervoso individual. Exige ação, claro, pois é impossível acontecer protagonismo entre paralíticos.

Assim, a resultante do movimento é orgânica, ou seja, deve voltar-se a uma busca por transformação da realidade. Não é um ato meramente individual. Não depende jamais de um único gato pingado. Tudo está associado e articulado a um coletivo societal. Protagonismo, portanto,  passa pela capacidade de enxergar, de perceber, de interagir com a coletividade ou com o outro.

Acredito que os princípios da  Pedagogia da Presença, adotada pelo projeto pedagógico do IEMA, contribui muito para a dinamização desse movimento, definido por Antonio Carlos Gomes da Costa como a passagem do estado de solidão para um outro, o momento do encontro.

Este movimento leva a um novo território, situado entre a solidão e o encontro com o outro, espaço que educadores e educandos constroem juntos, fundamental para atingir o estado de diálogo, razão dinamizadora do protagonismo, sobretudo em contextos como o brasileiro, em que o processo educacional permanece, de um modo geral, silente.

Eis porque o exercício de uma vida protagônica desenvolve capacidades para entender as razões que possibilitam apreender o significado de ser livre e, ao mesmo tempo, de entender a condição do outro.

Ainda no campo das afirmações conceptuais sobre o papel do protagonismo, acho importante, também, não perder a perspectiva de que Protagonismo Juvenil é um fenômeno social do qual deriva o Protagonismo Estudantil, tendo este último uma série de especificidades, principalmente em função do seu vínculo orgânico com a educação formal operada no mundo da Escola e da Academia.

Evidencio, ademais, que o objetivo programático do IEMA de se transformar em uma instituição educacional de excelência, dificilmente será alcançado se a referida estratégia não for trabalhada, cuidadosamente, no que diz respeito à participação e envolvimento do segmento estudantil, no âmbito do projeto político-pedagógico institucional.

Empoderamento e fortalecimento estes que devem se efetivar numa perspectiva ampliada, i.e´. indo para além dos requisitos puramente formativos. Desenvolver tais capacidades, implicando no efetivo empoderamento estudantil para o exercício de funções técnicas, requer muita competência pedagógica e superação de preconceitos e barreiras culturais por parte da comunidade acadêmica e dos gestores educacionais, no que estarão dando vida ao PDI como ordenador do processo de expansão institucional, em seus distintos recortes temporais e temáticos.

Enfatizo, assim, a força de um contexto nacional e regional marcados pela visão de que os estudantes, grosso modo, não passam de alunos, ou seja, aqueles cujas caças se encontram vazias, portanto despojadas de capacidades para implementar conteúdos técnicos e pedagógicos  para o trabalho educacional.

A efetividade desse processo de valorização estudantil precisa ser dimensionada com o máximo de competência, repito, não só por força das determinações culturais, em que para muitos, a participação estudantil na implementação do PDI não passa de uma figuração, pois, em geral, como visto, muitos imaginam que os estudantes são tábulas rasas nessa matéria,

Com efeito, o itinerário do Instituto vem evidenciando que é cada vez mais frequente a afirmação de um conceito, segundo o qual, o IEMA possui uma “energia de participação”. “A gente sente isso”, como muitos verbalizam. Privar a juventude desse papel é vetar o futuro às novas gerações, pois, em síntese, os jovens são naturalmente  demolidores de padrões consagrados pelos gerações mais antigas.

Não esquecer que a juventude convive o tempo todo com estímulos às mudanças, motivada, de um lado, pelos fluxos hormonais, e, de outro, por experimentarem, de modo crescente, um paradoxo inexorável, que é imaginar que podem ser livres a qualquer tempo, para fazerem tudo que quiserem, mesmo que se deparem com a impossibilidade recorrente de concretização de tais aspirações.

Esse dilema oxigena não só a vida do jovem,  como também contamina o ambiente onde atua, produzindo circunstancias existenciais em que é possível pensar a transformação de sonhos impossíveis em realidades concretas.

O protagonismo portanto é um processo; não é uma simples manifestação da razão pura. Sem canais de participação, o processo tende ao engessamento, e se fecha, impedindo o emergir de novas perspectivas, vitais para transformar contextos já estabilizados e conformados com o status quo. 

O esforço analítico adotado até aqui visa sobretudo realçar que considero o componente curricular do Projeto de Vida como o lugar central para enfrentar o desafio de conceber e implementar os conteúdos instituintes do protagonismo estudantil no âmbito do IEMA, sem dúvida alguma um dos componentes basilares do seu projeto político-pedagógico institucional.

Não é difícil concluir que Projeto de Vida não se limita apenas às dimensões constitutivas do currículo institucional. Seu horizonte vai para além de tais determinações. É também uma dimensão existencial e filosófica. Pode ser base para o aperfeiçoamento profissional, com vistas ao mercado de trabalho, podendo ainda contar com mentorias especializadas, criativas e avnçadas, originárias do quadro docente ou do ambiente acadêmico mais amplo.

Todo este processo se inicia, sempre, com o autoconhecimento, que estimula a busca de uma identidade, importantíssimo para um ser social em formação e que deverá ser preparado, entre tantas outras habilidades, para o exercício de uma cidadania ativa na sociedade.

O foco no desenvolvimento do Projeto de Vida implica igualmente na capacidade de inventar e reinventar a vida, a partir de um pensamento mutante, que precisa entrar em um processo de permanente transformação. A ciência comprova que quanto maiores os estímulos, mais o cérebro se robustece e se expande, elevando a capacidade de pensar. 

É evidente que educação de qualidade só acontece se houver um salto de qualidade no cérebro e no pensamento, em razão da evolução correspondente dos neurônios. Assim, numa perspectiva filosófica, só uma escola de qualidade é capaz de fazer com que os sonhos se transformem em projetos de vida.

Tal possibilidade não é fruto de visões mágicas e muito menos de intuições superiores. Nasce da implementação de capacidades, construídas e desenvolvidas ao longo do processo educacional baseado na construção do conhecimento, a partir dos contextos reais, tanto nas formas presenciais e virtuais.

O ser protagonista exige capacidade crítica em suas interações sociais e culturais. A capacidade de realizar a crítica social e da realidade depende muito das bases constitutivas desse processo. Se não for capaz de desenvolver o pensamento dos atores envolvidos, dificilmente se atingirá o estágio seguinte, aquele ligado à formação da consciência, que é a dimensão insubistituível para a efetivação da condição criadora do ser humana.

Somos, em última análise, produtos de nossas consciências individuais e coletivas. Esse atributo é mais relevante do que ter uma inteligência privilegiada.

Entendo, a rigor, que as instituições educacionais, para realizarem a sua missão finalística, não podem prescindir do envolvimento ativo dos integrantes de pelo menos cinco eixos de sustentação do processo pedagógico: professores, estudantes, gestores, famílias e entorno.

Em todas as experiências que conheci de boas práticas educacionais, Brasil afora, estes cinco eixos possuíam uma atuação integrada, orgânica e protagônica. Não tinham atuação figurativa.

Não cabe aqui explicitar a relevância de cada um deles. Não é o objetivo da entrevista. Assim, quero reafirmar, que é impossível atingir a educação de qualidade, aquela que possui efetividade, ou seja, os estudantes materializam o seu direito de aprender, sem que haja um projeto pedagógico capaz de articular, organicamente, as cinco dimensões destacadas.

Esses atores estratégicos precisam ser desafiados, permanentemente, no esforço de construção do projeto educacional adequado às necessidades do desenvolvimento dos contextos, o interno e o externo.

O desenvolvimento da dimensão aqui tratada, a do protagonismo dos estudantes, é insubstituível no âmbito do cumprimento da missão institucional do IEMA, focada na ideia de promoção de uma educação profissional, científica e tecnológica de forma inovadora e de qualidade, visando a formação integral dos jovens para atuarem na sociedade de maneira autônoma, solidária e competente.

Destacando que o Protagonismo Estudantil é eixo estratégico decisivo para a expansão do IEMA, entre tantos aspectos já evidenciados ao longo da abordagem, pela força que tem no processo de materialização do processo formativo do estudante: o meio mais efetivo para a dinamização das articulações envolvendo a dimensão acadêmica, as práticas sociais do estudante e a efetivação do projeto de vida, como culminância da formação.

Continuando, vale destacar a ênfase plena e o apoio institucional absolutos à política de valorização da estratégia do Protagonismo Juvenil e Estudantil no planejamento e na gestão do desenvolvimento do IEMA, a cargo do Reitor e seu corpo dirigente, dos demais membros da comunidade acadêmica, técnica e administrativa, que vêm adotando, desde o inicio do reitorado, uma pletora de estímulos ao desenvolvimento da participação dos  estudantes na vida do IEMA. 

A estratégia central associada a essa política passa pela visão, segundo a qual, o processo de expansão do IEMA só será sustentável se continuar implementando suas  bases de sustentação acadêmica, pedagógicas e infraestrutural, de modo cada vez mais vigoroso, encontrando no protagonismo juvenil sua essência teórico-metodológica..

Vive-se o primeiro momento deste processo, amplamente vitorioso, marcado pela profusão de iniciativas relevantes, que poderão, pelos seus resultados efetivos, se transformarem em instituintes, isto é, capazes de se internalizarem profundamente na dinâmica acadêmica e pedagógica da Instituição e assegurar a conquista crescente de padrões de qualidade educacional.

Além das iniciativas próprias de cada uma das Unidades Plenas, e tantas outras das Unidades Vocacionais, distribuídas em municípios do Estado, com suas peculiaridades e características intrínsecas, no âmbito supra estrutural da Instituição, várias são as iniciativas que impactam forte e plenamente no Protagonismo Juvenil e Estudantil, destacando-se os certames sobre conhecimentos dos estudantes, de âmbitos estaduais, regionais, nacional e internacionais, nos quais os estudantes do IEMA participam de forma destacada; assim como os programas de intercâmbio nacional e internacionais, como o IEMA no Mundo, associados à aprendizagem de idiomas e ao intercâmbio educacional e cultural; e, mais recentemente, o ingresso na Rede de Escolas Associadas da UNESCO, Rede PEA, feito singular, pelo ineditismo no âmbito das redes escolares do Maranhão, sejam entre as escolas públicas ou as particulares.

Uma Rede que cresce aceleradamente no Mundo. No Brasil, saltou de 361 escolas em 2017, para 583 em 2018. A Rede brasileira é a segunda mior do planeta, menor apenas que a do Japão. Está presente em 181 países de todos os continentes, no que abre um leque vastíssimo de possibilidades de intercâmbio internacional e de cooperação internacional federativa.

A aludida Rede tem como princípios fundamentais promover a cultura de paz, a educação para o desenvolvimento sustentável e a formação de gerações conscientes do seu papel como protagonistas de uma cidadania global, no que fortalece a iniciativa interna do IEMA de empoderar o protagonismo estudantil como projeto instituinte educacional.

Vale enfatizar, por seu turno, que a Rede possui como objetivos especiais difundir a Inovação e a Qualidade da Educação como fatores impulsionadores do desenvolvimnto econômico e social, requisitos estratégicos para o fortalecimento das economias locais presentes no território maranhense, marcadas por práticas de produção pouco desenvolvidas e tecnologicamente defasadas.

Para potencializar a participação do IEMA na Rede PEA, está sendo desenvolvida a formação de uma Cátedra Acadêmica, a Cátedra PEA-IEMA, visando mobilizar talentos e oportunidades dentre os integrantes da Rede, com destaque para laboratórios de ideias, programas de formação e aprendizagens colaborativas, oportudes de trocas de experiências profissionais e culturais, entre muitas outras linhas de atuação compartilhadas.

O mais abrangente dos objetivos estratégicos da Rede PEA é ajudar a conquistar os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, focados na Agenda ODS 2030 da ONU, o que poderá atribuir ao IEMA um papel destacado nas articulações interinstitucionais sobre a temática da sustentabilidade do desenvolvimento no contexto maranhense..

Deve-se destacar, por outro lado, que o Protagonismo, em sua contextura orgânica, aquele que ocorre no interior de uma Instituição Educacionl, seja uma Escola ou uma Universidade, depende fundamentalmente de uma consistente e bem sucedida política interna de Ensino, Pesquisa e Extensão.

O processo educacional do IEMA concebe que o ensino, a pesquisa e a extensão devem se constituir de forma integrada e indissociável na formação dos estudantes, sejam como técnicos, tecnólogos, graduados e profissionais pós-graduados, estes últimos quando o IEMA estiver atuando também na educação superior, voltados para o saber científico, tecnológico e cultural, comprometidos com a transformação da realidade social.

Percebe-se que a integração entre ensino, pesquisa e extensão está diretamente relacionada à organização curricular e à flexibilização dos tempos e dos espaços escolares e extraescolares. Parte do princípio de que os saberes necessários ao trabalho conduzem à efetivação de ações do ensino e aprendizagem dialógica, da pesquisa e da extensão.

Assim, torna-se fundamental o envolvimento dos estudantes em projetos de pesquisa e extensão, que contribuam para sua formação, dando-lhes sustentação tanto empírica quanto epistemológica.

Sem estudantes protagonistas é impossível incrementar a prática educativa evidenciada, pois passa pela promoção e desenvolvimento do senso crítico do estudante em relação ao mundo e ao pleno exercício de sua formação, capacitando-o para as inovações tecnológicas.

Em síntese, de acordo com a aludida proposta pedagógica, a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão deve promover a articulação das diferentes áreas de conhecimento e a inovação científica, tecnológica, artística e cultural.

Portanto, é fundamental para a expansão do Instituto, priorizar projetos de pesquisa e programas de iniciação científica vinculados aos objetivos do ensino e extensão, inspirados em proposições, demandas locais, regionais e nacionais, como preconizam os projetos político-pedagógicos institucionais em vigor.

Nesse intuito, é vital estimular e incrementar o  intercâmbio com instituições científicas nacionais e internacionais, visando firmar acordos e convênios sistemáticos entre os atores institucionais, tanto pesquisadores e estudantes, sem esquecer o desenvolvimento de projetos comuns entre as instituições e suas comunidades acadêmicas, técnicas e gerenciais.

Feitas as considerações acima, para responder com precisão a questão a respeito de como os projetos atuais que dialogm com o Protagonismo Juvenil/Estudantil estão sendo recebidos e interpretados no IEMA, necessita-se de um mergulho mais profundo em suas práticas e movimentos cotidianos, sobretudo a partir do dia a dia de suas Unidades Plenas e Vocacionais.

Não esquecer que se experimenta o primeiro ciclo de expansão do IEMA (2015-2018), caracterizado, sobretudo, por sua natureza experimental, não só no que respeita ao modelo pedagógico, como no que se refere ao sistema de planejamento e gestão institucional como um todo e daqueles correspondentes ao funcionamento da rede de escolas existentes.

Enquanto integrante da equipe de planejamento estratégico da Reitoria, não tenho dúvida de que, em termos amplos, os projetos já referidos ao longo desta análise estão sendo recebidos e interpretados de maneira muito satisfatória, sobretudo pela reação positiva da comunidade acadêmica e dos dirigentes internos e externos, encantados com os êxitos da instituição, perceptível quando se manifestam publicamente.

Chega-se, com louros, ao fim da corrida de obstáculos que foi o primeiro ciclo de implantação do IEMA, exigente e desafiador, por seus elevados objetivos programáticos, focados na ousadia de promover a educação de qualidade na escola pública, em um contexto ainda despojado de competências ampliadas e de baixas exigências pedagógicas e sociais.

O momento agora é de elevada concentração e inspiração para preparar a transição ao novo ciclo, abrangido pelo quadriênio 2019-2022, quando o país completará 200 anos de sua Independência como nação soberana, mesmo desacreditada pelos críticos, e o encerramento do atual ciclo virtuoso do novo governo estadual, quande deverá coroar os êxitos de suas bem sucedidas estratégias de governança, diferenciadas do modelo histórico tradicional dos antigos regimes oligárquicos.

A hora é de guarnicê e de pensar grande os próximos passos. Mobilizar toda a comunidade acadêmica e as demais que interagem organicamente com o futuro imediato do IEMA, a fim de não deixar essa ciranda de sonhos ir ao chão.

O núcleo do poder central, localizado no Palácio dos Leões, também aquece seus músculos e azeita suas inteligências para montar a nova engenharia política que terá a missão de efetivar a implementação dos compromissos assumidos na disputa eleitoral, entre as mais destacadas, a de viabilizar o projeto de implantação de mais 100 IEMAS até 2022. Em 1922 se estará a 8 anos da Agenda 2030, com suas 17 metas globais estabelecidas pela Assembleia Geral da Nações Unidas, voltadas à conquista do desenvolvimento sustentável no contexto dos países signatários da Agenda, onde se inclui o Brasil.

O fim de 2018, em clima pós-eleitoral, anuncia um cenário desafiador e influenciado por três fatores marcantes: o primeiro, dinheiro escasso, dando o Tesouro Estadual os sinais preocupantes de que a arrecadação está desidratada, portanto sinalizando que o cinto vai ser apertado daqui para frente; segundo, uma nova equipe de governo deverá ser formada, considerando o panorama estadual e o novo cenário político nascido das eleições presidenciais, exigindo muita sabedoria na composição de um time de dirigentes que mescle quadros estratégicos do governo que finda, aos novos que chegam para realizar mais este desafio de continuar trabalhando pelo desenvolvimento sustentável do Maranhão. Capacidade e inteligência na costura da nova governança a partir da escolha, na rosa-dos-ventos, do melhor norte, aquele que levará a nau da esperança ao porto mais seguro.

Internamente o recomeço deverá partir da intensificação do reconhecimento dos projetos que dialogam com o Protagonismo Juvenil, diversificando-os e clareando a forma como são recebidos e interpretados pela comunidade.

O sentido de todas as ações educativas é assegurar um reconhecimento do alto valor pedagógico ao trabalho institucional do IEMA, coroando o esforço extraordinário de um coletivo acadêmico, estudantil e de gestores competentes e compromissados com a educação pública de qualidade, atuando sob uma regência reitoral talentosa e criativa, o que continuará garantindo de forma eloquente o acerto do Governo Flávio Dino em política pública educacional de qualidade, desta feita, para além das fronteiras do Maranhão.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

CHAMAS QUE APAGAM



Raimundo Palhano


O estado de extravio em que o Brasil se encontra tende ao paroxismo, na medida em que os ocupantes do trono parecem adeptos da piromania, recorrendo ao  fogo como a maneira mais eficaz para apagar a memória e dissolver a história nacional e assim se manterem no poder. 

Desde 1978, com o incêndio do Museu de Arte Moderna, até a gigantesca fogueira em que se transformou o Museu Nacional, o mais precioso da coroa, os exemplos se sucedem.

Maturidade, lucidez e paciência, muita paciência mesmo, como propõem alguns, para fazer das cinzas em que se transformaram as preciosidades destruídas, em luzes de esperança. Uma expectativa cada vez mais difícil de despertar paixões, pois a cada momento parece que estamos perdendo a capacidade de discernimento.

O incêndio do Museu Nacional, no dia 2 de setembro passado, deixou o país perplexo e em luto profundo. Se as labaredas da corrupção, da insegurança, do desemprego e da desigualdade já vinham, simbolicamente, consumindo as nossas crenças no futuro, com as chamas do Museu de 200 anos, o maior que nós tínhamos, assistíamos imóveis a consumação pelo fogo voraz de mais de 20 milhões de itens de um dos maiores acervos da cultura brasileira, de importância global.

O incêndio devorou documentos e peças de valor histórico, científico e artístico que traduziam a cultura de várias gerações e de um povo singular como o brasileiro. O que precisamos fazer agora é reagir aos perigos que rondam a nossa sociedade, que poderão levar o país ao descrédito internacional, atingindo de morte o seu povo e suas instituições, pela evidenciação da incapacidade nacional de preservar um dos seus mais preciosos tesouros: a capacidade de se instituir como civilização e de construir o seu próprio futuro.

Alguma coisa vem dando errado no Brasil contemporâneo e que está levando à destruição uma das mais promissoras culturas dos trópicos e dos tempos modernos, que já deu mostras eloquentes de vitalidade no passado, fazendo com que seu povo acreditasse que seria capaz de abrir as janelas para o futuro.

É vergonhoso admitir que deixamos às chamas um dos cinco maiores acervos museológicos do mundo. 

Queimamos fósseis de 12 mil anos; sarcófagos; documentos da Lei Áurea; o acervo de botânica Bertha Lutz; o maior dinossauro brasileiro; o maior carnívoro brasileiro; fósseis de plantas já extintas; o maior acervo de meteoritos da América Latina; o prédio onde foi assinada a independência do Brasil; duas bibliotecas importantíssimas; permitindo que as chamas da incompetência e do descaso devorassem parte da História do Brasil e do Mundo.

A maior desgraça que as chamas do Museu pode causar ao Brasil é revelar ao mundo que não temos mais capacidade de projetar o nosso futuro. Para isso, os briosos bombeiros não darão conta sozinhos. Todos precisamos reagir e fazer com que as cinzas da destruição se convertam em vidas novas.

A reação começa agora. Olho sereno e cidadão nas eleições de outubro.

terça-feira, 4 de setembro de 2018


TRAÇOS SENSÍVEIS
Raimundo Palhano

Traços Humanos: seu viver cotidiano é um libelo em favor da vida convivida todos os dias e noites. Ajuda muitos de nós a sair das cavernas escuras e solitárias ou dos labirintos insondáveis em que nos encontramos ou nos perdemos.

É o exercício de um dom conferido a Ruy Palhano, o Autor da obra, presente em sua produção intelectual exuberante, justamente o poder de dar vida ao cotidiano humano, geralmente pensado e traduzido como uma rotina que sempre se repete igual. Esse dom decorre da sua capacidade técnica, filosófica e criadora de olhar lá dentro.

Olhar lá dentro todos podem tentar e mesmo fazer. O mergulho existencial precisa revelar todavia porque as pessoas estão caminhando de costas.

Olhar lá dentro é discernir o nascente do poente. E no outro instante ficar sem norte algum para poder procurar o novo nascente e o poente acabado de nascer.

É uma incursão no provisório do terremoto, mesmo que tudo esteja petrificado ou derretido. Por isso o livro todo é sólido e líquido, evidente no esforço filosófico e científico do Autor, em sua arte pela humanização do cotidiano das criaturas.

São traços não condicionados ao bem ou ao mal, ao certo e ao errado. É um olhar sob a forma de miniaturas existenciais. A força esta na presença da paixão, sem a qual os traçados despencariam.

O livro revela que estamos precisando de reencontros, antes dos julgamentos e das sentenças sobre nossas mal traçadas vidas. É como se estivéssemos tirando leite das pedras. Para dizer que a vida existe.

domingo, 14 de janeiro de 2018

APRESENTAÇÃO DE UMA LENDA


(Apresentação de RUY PALHANO SILVA, empossando da Cadeira Patroneada pelo Padre Antonio Vieira, do IHGM, pelo Padrinho Raimundo Palhano, ocupante da Cadeira 39, de Francisco GaudêncioSabbas da Costa, no dia 12 de Janeiro de 2018)


Exmo. Sr. Presidente do IHGM, Professor Euges Lima,
Senhores integrantes da Mesa,
Senhoras e Senhores,
Estimadas e Estimados Confreiras e Confrades,


APRESENTAÇÃO


EVIDÊNCIAS BIOGRÁFICAS. Exalto, de imediato, a minha alegria e honra em fazer a Apresentação de RUY PALHANO SILVA, não só pelos nossos laços de consanguinidade, mas, sobretudo, pela imensa paixão que tenho por ele.

Passará a integrar o IHGM, vinculando-se a uma Agremiação quase centenária, que fará em 20 de novembro deste ano 93 anos de existência na história cultural maranhense.

Pelo muito que com ele aprendi, não aporta na Instituição  pela conveniência de fazer parte de uma das organizações longevas e proeminentes da nossa sociedade, ao lado de outras, como AML, ACM, Faculdade de Direito, Liceu Maranhense, sedes eclesiásticas, governamentais, de poderes e de instituições antigas do Maranhão, como Colégio dos Jesuitas, Convento das Mercês, Seminário Santo Antônio.

Não chega também à Confraria para reforçar o retorno da visão que sempre volta sobre a “prodigalidade maranhense”. Estará ao lado daqueles confrades e confreiras que lutam por um IHGM edificador dos méritos e da consagração pública dos seus membros, sob o império da liberdade e da autonomia do pensamento e da ação.

O seu ingresso na Instituição representa uma forte retribuição aos créditos sociais que conquistou em seu percurso biográfico, sempre avesso ao típico processo maranhense de formação de linhagens, muito marcado pelo peso da dominação política e carismática.

Ingressa na Casa de Antonio Lopes com a missão de ressignificar  o discurso homilético do seu Patrono, Antonio Vieira, comprometido com a administração da salvação, em uma terra em que até o sol e os céus mentem, segundo o célebre Sermão da Quinta Dominga da Quaresma, de 1654. Nesse sentido, vejo apenas um obstáculo para RUY: sua incapacidade existencial de realizar a façanha de Vieira, de ser, simultaneamente, um membro da Companhia de Jesus e um Homem do Paço. Isto porque, ao ingressar nesta Casa, o Empossando compromete-se a superar o cartesianismo e as verdades axiomáticas, o que implica na ressignificação simbólica do legado deixado pelo genial Sacerdote.

Farei a Apresentação, que classifico como introdutória, mesclando aos alinhavos que teci, à guisa de Prefácio, à sua obra mais recente, o volume 2 da série CRÔNICAS DO COTIDIANO NA VISÃO DE UM PSIQUIATRA, em vias de edição e breve lançamento, os elementos do “Discurso sobre Ruy”, elaborado com brilhantismo por minha sobrinha Pilar Palhano Neves e pronunciado em 21 de dezembro de 2017, na sessão solene em que foi agraciado com a medalha Manoel Beckman da Assembléia Legislativa do Maranhão, somando-os aos conteúdos analíticos que considero indispensáveis para desincumbir-me da missão de apresentá-lo a este Sodalício.

Nasceu em Caxias, filho de Aracy Palhano Silva e Pedro Nunes e Silva, já habitantes da esfera celestial, no dia 30 de junho de 1950, em um dia de muito sol e plenilúnio. Logo em seguida tomou o caminho de São Luís, onde se tornou um cidadão do Maranhão, do Brasil e constituiu Família em maiúscula. RUY só existe em plural majestático: em tudo que fez e faz vem sempre na companhia de Rita Bacelar Palhano, Pilar, Bruno e Ludmila, casados com Diogo, Jamênia e Ricardo, renascidos em Davi, Jamily, Leonardo e Lara, seus mais preciosos tesouros vivos.

Inicio pela sua formação profissional, cultural e acadêmica. Tornou-se um profissional reconhecido e respeitado na comunidade, região e país por sua atuação, estudos e pesquisas sobre saúde mental, drogas e dependência química, além de integrante, fundador e dirigente de importantes instituições de reconhecimento público, como o Conselho Regional de Medicina, o Conselho Nacional Antidrogas e o Conselho Estadual, a Academia Caxiense de Letras e a Academia Maranhense de Medicina, tendo sido, desta última, um dos seus presidentes.

A trajetória profissional e social de RUY se inaugura com a psiquiatria, em seu curso de Medicina, iniciado na Universidade Federal do Maranhão e concluído no Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1977, onde concretizou a residência médica, tendo concluido também, no ano final, estágio na tradicional Universidad Complutense de Madrid, na Espanha.

Em seu currículo pode-se verificar eventos como Mestrado em Ciências da Saúde – UFMA; Professor de Psiquiatria do Curso de Medicina da UFMA; Professor de Psiquiatria do Curso de Medicina do UNICEUMA e Preceptor do Internato; Especialista em Psiquiatria pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ; Especialista em Psiquiatria pela Associação Médica Brasileira e Ass. Brasileira de Psiquiatria - AMB/ABP; Especialista em Dependência Química - Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP; Membro Titular da Associação Brasileira de Psiquiatria – ABP; Membro Titular da Associação Maranhense de Psiquiatria – AMP; Conselheiro Titular do Conselho Municipal de Políticas sobre Drogas – COMPOD; Ex. Presidente, por dois mandatos e Membro Efetivo, da Academia Maranhense de Medicina – AMM; Diretor Presidente do Instituto Ruy Palhano; Membro Efetivo da Sociedade Maranhense de História da Medicina – SMHM; Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – SBRAMES – Ma; Membro Efetivo a Academia Caxiense de Leras – ACL; Conselheiro Titular do Conselho Regional de Medicina – CRM; 2º Vice-Presidente do Conselho Regional de Medicina – CRM; Consultor técnico, em Saúde Mental e Políticas Públicas sobre Drogas.

Possui vários títulos honoríficos e menções honrosas, como: em 1997, Cidadão de São Luís, pela Câmara Municipal de São Luís; em 1998, Moção de Congratulações e Aplausos, pela Câmara Municipal de São Luís; em 1999, Diploma de Honra ao Mérito, da Câmara Municipal de São Luís; em 1999, Medalha Celso Magalhães, do Colégio de Procuradores de Justiça do Estado do Maranhão; em 2000, Diploma de Honra ao Mérito da Associação Maranhense de Psiquiatria, AMP; em 2000, Medalha Simão Estácio da Silveira, da Câmara Municipal de São Luís; em 2003, Cidadão de Itapecuru Mirim, da Câmara Municipal de Itapecuru Mirim; em 2003, Diploma de Mérito pela Valorização da Vida, pela Secretaria Nacional Antidrogas, SENAD; em 2012, Ordem ao Mérito, da Associação do Ministério Público do Estado do Maranhão, AMPEM; em 2012, Ingresso na Ordem dos Timbiras, no Grau de Comendador, Comemorativa do IV      Centenário de São Luís e, em 2017, Medalha Manoel Beckman da Assembléia Legislativa do Estado do Maranhão.

Reúne uma produção intelectual de grande densidade literária e científica e apreciável volume. Seus principais livros publicados são: DROGAS: SAIBA MAIS A SEU RESPEITO, em 2002; SIMPÓSIO:ATUALIDADES EM ALCOÓLISMO, em 2002; ALCOOLISMO,TABAGISMO E ABUSO DE DROGAS: IMPLICAÇÕES CLÍNICAS E PSICOSSOCIAIS, em 2002; CONSUMO DE DROGAS E OUTROS COMPORTAMENTOS RELACIONADOS, em 2010; CRÔNICAS DO COTIDIANO NA VISÃO DE UM PSIQUIATRA, volume I, em 2015.

Além das obras mencionadas, figura como autor ou organizador de mais 8 livros inéditos sobre diferentes temáticas ligadas a sua área de atuação profissional e intelectual, finalizados e diagramados, aguardando apenas captação pela Lei de Incentivo Cultural do Maranhão.

Ao longo dos anos tem se destacado como Conferencista, proferindo, nos últimos 35 anos, mais de 2000 palestras, dentro e fora do país, sobre temas da Psiquiatria, Saúde Mental, Políticas Públicas sobre Drogas, entre os mais frequentes.

Com presença constante na mídia televisiva e impressa, vem abordando temas da mais alta relevância social, dentro de seu universo profissional e cultural, realizando um importante trabalho de popularização do conhecimento.

Uma de suas mais novas incursões intelectuais vem sendo o trabalho de colunista colaborador em periódicos da capital e do interior, destacando-se em dois dos mais importantes jornais do Maranhão, sediados em São Luís, no caso o Jornal Pequeno e o O Imparcial, nos quais publica, semanalmente, crônicas e artigos analíticos largamente demandados por seus inúmeros leitores.

A produção intelectual e as novas crônicas e artigos do Confrade que chega aliam capacidade literária e conhecimento científico, combinando plasticidade e estética de modo consistente. Por mais leve que seja o tema, trata o conteúdo com todo o respeito e cuidado. Com isso deixa de ser vulgar e enfadonho. Questões médicas e psiquiátricas que atingem as pessoas e seus leitores, em suas crônicas se transformam em consultórios sentimentais, combinando magistralmente afetos e discernimentos clínicos.


IMAGEM E CARISMA. Um olhar mais preciso permite concluir que o ethos de Ruy é determinado pela inquietação dos inconformados, que percorre o sistema nervoso de sua alma e de sua produção intelectual, fundamento da riqueza da obra que construiu em favor da humanidade, presentes em seus legados profissional, intelectual e artístico.

Só transcende quem se insurge, quem transgride o estabelecido paralítico. O Instituto Ruy Palhano, antes de existir, era um terreno despido em um lugar ermo e esquecido no município de Raposa, que se transformaria em um lugar de referência no tratamento da doença mental e das drogas no Maranhão e no Norte e Nordeste.

A alma de Ruy, portanto, sempre foi inconformada e transgressora, sem nunca ter deixado de ser completamente doce.

Fiel à sua natureza inquieta, guiará seus pés sempre se instituindo e desconstruindo em favor de um ser humano mutante, que começa como médico e prossegue como professor, empreendedor, estudante de filosofia, literato, escritor e agora, mais uma vez, ansioso para atravessar os novos riachos, ou oceanos, que aparecem em sua vida.

Trata-se de um exímio surpreendedor. Essas transmutações todas que vão acontecer em sua trajetória multifacetada partiram sempre de decisões pessoais dele. A maior de todas para mim, a que mais me maravilhou, foi ter acompanhado a sua transformação em um escritor fértil, criativo e, mais importante, lido.

Com isso quero dizer que o que faz de RUY um ser triunfante e admirado, tanto na dimensão humana, profissional, intelectual e artística, não decorre apenas de sua inteligência luminosa, ou de sua criatividade reconhecida ou ainda dos seus dotes literários aplaudidos. Não são devidos apenas a tais predicados. 

Ruy é um virtuoso sobretudo porque ousou ser, sempre, e em tudo, não se conformando, tanto com as coisas estabelecidas em seu mundo interior, nem tampouco com os padrões vigentes na sociedade inclusiva. 

Vistos pelas perspectivas filosófica, antropológica e poética, em sentido amplo, os feitos vitoriosos de Ruy se devem ao fato dele ter sido um transgressor, uma alma que se empenhou para romper padrões culturais e morais do mundo em que atua, sobretudo aqueles eivados de hipocrisia, sempre buscando um universo e uma sociedade melhores para a condição humana.

A criança que sempre quis ir além do arco-íris, que desafiou o tempo para se preparar para a vida e que, muitas vezes, teve que enfrentar seus medos e angústias sozinho, venceu as pedras do caminho porque nunca desistiu de ter sonhos e de amar à vida.

Espero, por fim, ter contribuído no enfrentamento do desafio de Apresentar tão singular Criatura, uma Lenda para mim,  destacando suas maiores virtudes: a ousadia, o talento, a competência e a generosidade humana.

Que traga sorte e inspiração para esta Casa, que hoje também se regozija com o ingresso de outro Empossando fulgurante, que ocupará a Cadeira 56, patroneada por Jerônimo de Viveiros, de quem também sou Padrinho Espiritual voluntário e admirador convicto: o Doutor Diogo Guagliardo Neves, com formação acadêmica invejável e reconhecida atuação em favor da cultura maranhense, sendo, por tudo isso, representante destacado de uma nova geração de intelectuais que contribuirão para retirar o Maranhão do Extravio.


Muito obrigado!

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

EDUCAÇÃO É UM ECOSSISTEMA CULTURAL

NANOTESES 1

Por Raimundo Palhano


        Embora muitos saibam que a responsabilidade com o desenvolvimento da educação na sociedade brasileira cabe a três segmentos sociais estratégicos, no caso o governo, a escola e a família, volta e meia estão culpando os governos pelo fracasso educacional e deixando incólumes os outros corresponsáveis pelo processo.


        Não é que estejamos atenuando ou mesmo eximindo e retirando as responsabilidades e o peso do poder público com a efetividade das políticas públicas educacionais. Começamos desse modo porque entendemos que ajuda a compreender melhor que a educação é um ecossistema cultural intimamente ligado com o desempenho dos governantes, dos educadores e, seguramente, com a atuação dos pais ou responsáveis familiares.


        Não se trata de frase pronta ou a recorrência a um senso comum, que muitos entendidos verbalizam à exaustão. Trata-se de uma assertiva que tem a ver, inexoravelmente, com uma estratégia pedagógica que possui altíssimo grau de comprovação e eficiência operacional. Basta ver o resultado em muitos países de educação desenvolvida, em que a base de tudo está no aprofundamento das ligações orgânicas entre os três pilares acima referidos e dentro de cada um deles, em especial.


        Fugindo do eminentemente retórico, no Brasil e nos estados de um modo geral, ainda não conseguimos integrar e harmonizar os vínculos que enlaçariam a tríade pedagógica aludida, em um sentido único, pela assimilação da ideia de que a educação é para a vida, fundamental para romper o estado de fracasso que impera no país, em favor do emergir de um desejado estágio de aprendência, sobretudo na educação básica e, mais ainda, na educação básica municipal.


        Com efeito, a qualidade da educação depende de pelo menos dois outros fatores: recursos financeiros e infraestrutura física e material. Além da tríade descrita acima, esses outros componentes são insubstituíveis.


        O principal problema não é disponibilidade de finanças. É importante elevar o percentual de investimento em educação comparativamente ao tamanho do PIB. Se, no entanto, o montante de dinheiro não for aplicado no lugar certo, o maior volume de moeda só interessa às corporações mercantis que “cercam” as verbas da educação e que, em geral, ficam com boa parte dos recursos disponíveis. Defendemos que se reveja o modelo do Fundeb. A pulverização de recursos é uma faca de dois gumes. Se o município for fraco e o sistema de educação incapacitado, as corporações mercantis partem para controlar o Fundo, que em muitos lugares e maior que o FPM e se encontram “privatizados”.


        Creio que o maior desafio é instituir um sistema de educação em que governos, escolas e famílias assumam papéis corretos e concretos no planejamento e gestão da educação das crianças e jovens do Brasil inteiro. Para isso acontecer, a desigualdade social representa uma ameaça poderosa.


         É essencial substituir a atual governança, em que o governo determina e domina de forma vertical, por uma outra, horizontal, em que os três componentes estratégicos do processo educacional desenvolvam competências para elevar a qualidade educacional.


        A escola tem um papel primordial. É o lugar no qual se constrói a educação formal, culta, técnica e versátil, capaz de promover competências e cidadanias. A família é a comunidade de afetos, de respeito aos legados individuais e familiais, o espaço das heranças históricas, de convivência pessoal e fortalecimento de vínculos humanos.


       O que se vê hoje é um profundo despreparo das famílias, tanto das ancestrais, como das provenientes das novas gerações, em geral extremamente incapacitadas para o trabalho educacional dos filhos e filhas.


        A influência do domínio vertical de muitos governos leva o poder público a investir em projetos puramente midiáticos, sem a menor capacidade de mudar a estrutura educacional vigente. Chegará um tempo em que será proibido fazer propaganda de políticas públicas de estado, sob pena de responsabilidade penal para que fizer propaganda enganosa.


        Por outro lado, escolas faz-de-conta são muitas nesse mundo afora e no Brasil horrorizam. Verdadeiros depósitos de crianças, esses são lugares em que se oficializa o desperdício e se queimam dinheiros à vista de todos. Escola é um mix envolvendo infraestrutura e projeto pedagógico. Um ou outro sozinhos também não dão conta do problema. Não esquecer que educação é sistema.


        Síntese de tudo: a horizontalização na produção, circulação e distribuição dos atributos e conteúdos educacionais, construídos e desenvolvidos numa perspectiva ecossistêmica e cultural, é que, em última análise, fornecerão as bases materiais e culturais para a superação das estruturas educacionais atrasadas que inviabilizam o Brasil como uma civilização bem sucedida no mundo, abrindo caminhos efetivos para o fim das desigualdades sociais, as quais, até agora, permanecem invencíveis.



terça-feira, 25 de julho de 2017

O MARANHÃO, SEUS AVESSOS E ANÁLISE CONJUNTURAL


Raimundo Palhano

(Trabalho publicado, originalmente, na Revista Imesc de 2008)


1 INTRODUÇÃO


        Decorrem do predomínio de explicações consagradas as dificuldades de sistematizar visões alternativas sobre o que foi, é e o que poderá ser o Maranhão. Muitos equívocos e alguns mitos, por essa razão, ainda permanecem vivos. A retomada dos estudos conjunturais pelo IMESC poderá contribuir para o processo de quebra dos paradigmas consagrados, normalmente despolitizadores, e alargar os horizontes interpretativos sobre a formação maranhense de um modo geral.

        O momento histórico vivido pelo Maranhão, com um governo democrático instalado nos Leões, e também pelo país, marcado por uma atmosfera otimista, apesar dos estragos da crise financeira norte-americana e dos seus impactos devastadores, não deixam dúvidas de que é preciso continuar passando a limpo a formação social maranhense e a sua dinâmica contemporânea. Dispor de estudos e pesquisas que se reportam aos movimentos conjunturais da economia e da sociedade representa subsídio importante para o planejamento das políticas públicas governamentais, como, igualmente, um bom pano de fundo para os empreendedores econômicos e para a sociedade civil organizada.
   
        Próximos do fim da primeira década do ano 2000, muitas incertezas ainda continuam desafiando agora, agravadas pela crise do mercado hipotecário dos Estados Unidos, vistos até ontem como superpotência absoluta. Velhas crenças e até mesmo as novas, como a ilusão do neoliberalismo, saem do mapa pela porta dos fundos e de forma sorrateira.

        A descrença na globalização tradicional, como expressão de um fenômeno econômico baseado na financeirização dos mercados, é o traço mais característico dessa nova realidade. Uma nova globalização pós-neoliberalismo deverá nascer o mais rápido possível, cuja característica básica será sua maior diversificação. Entre Bretton Woods de 1944 e os EUA de 2008 muitas águas rolaram em todos os continentes e tudo indica que os barcos do capitalismo financeiro hegemônico não chegarão a nenhum porto seguro. A ordem econômica mundial navega em águas agitadas e ondas de crise estão cada vez mais fortes, ameaçando o desenvolvimento sustentável, o estado provedor social, a dívida pública interna e externa, e, sobretudo, a evolução do trabalho e do emprego.

        Quais então as perspectivas de desenvolvimento para países como o Brasil e estados como o Maranhão, em contextos como estes, marcados por fortes instabilidades e desequilíbrios sistêmicos e pela financeirização e globalização dos mercados?

        O momento presente evidencia que não há a menor possibilidade, nem no presente e nem no futuro, de que a economia real e a do trabalho sejam dispensáveis na nova ordem mundial que certamente nascerá da atual crise global. Em lúcidas ponderações, Boaventura Santos  afirma que não se trata de desglobalização. Segundo o autor, o que está em curso são mudanças na atual forma de globalização, cuja conseqüência principal deverá ser o surgimento de modificações na globalização dos movimentos sociais. Um contexto altamente favorável ao surgimento de uma nova centralidade para as questões nacionais e regionais, implicando em novos padrões de governança que, concretamente, fortalecerão os papéis do regional, do nacional, do estado, dos partidos políticos e nas políticas de alianças entre as nações, com vistas a uma nova cooperação e a um novo relacionamento internacional.

        As lições aprendidas recentemente, a partir dos cenários já evidenciados, deixam claro que a valorização social do desenvolvimento econômico endógeno, hoje e no futuro imediato, dependerá muito mais de seus conteúdos éticos do que ganhos infinitos de uma minoria nos mercados financeiros globais. Não bastará, nesta nova sociedade, que certamente virá, apenas a flutuação das bolsas e pregões ou mesmo o domínio de técnicas e métodos avançados, se o desenvolvimento não estiver referenciado na equidade social, sobretudo nos compromissos com o desenvolvimento humano e sua sustentabilidade.

        Definitivamente, a globalização atual não é ou será um fenômeno mundial perene, que se aplica a diferentes realidades, portanto algo inexorável, não restando aos países outras alternativas, a não ser se inserirem nessa nova ordem mundial hegemônica.

        Os últimos acontecimentos atestam que a globalização é, sobretudo um fenômeno econômico decorrente de um sistema de poder que interessa, sobretudo às grandes potências mundiais e seus aliados dos setores hegemônicos, as quais, confirmando tudo isso, saem agora em socorro dos bancos de investimento, das grandes sociedades hipotecárias e das maiores seguradoras do mercado mundial, com isso buscando evitar a quebradeira geral, que seria fulminante para desorganizar o referido sistema de poder.

        Nesse sentido, local e global não devem ser vistos mais como a mesma coisa, embora nunca tenha havido global sem local e vice-versa. Ou seja, há também um imenso mercado de trabalho para o país, em suas regiões geográficas, em seus estados federados e nos seus milhares de municípios. O que se precisa fazer é lutar para que o desenvolvimento econômico do país se faça de dentro para fora, para que não fique dependente das circunstâncias e dos fluxos externos de capitais. Nesse novo contexto em construção, o desenvolvimento endógeno regional e nacional assume assim posição determinante.

        A valorização do desenvolvimento econômico real decorrerá também da capacidade que se tiver de desenvolver nas comunidades as potencialidades do conhecimento, fazendo surgir novas oportunidades de emprego e geração de novas tecnologias que aproveitem o potencial de recursos naturais disponíveis. A existência é sempre criadora, mesmo quando parece repetir-se ciclicamente. Pensar o desenvolvimento como algo que dependa exclusivamente da inserção nos mercados globais impedirá de criar novas alternativas de superação do atraso.

        Deve-se, mais do que nunca, ter o otimismo como bandeira, sem deixar, contudo, de prestar atenção nos sinais mais evidentes do mundo real que apontam para a desesperança e para o fim das utopias.

        Como brasileiros e maranhenses é preciso manter o compromisso histórico de lutar pelo desenvolvimento sustentável e pela soberania do país e do estado natal. Para as novas gerações e para os menos jovens, o leque de desafios continua muito grande. Não é hora de desistir. É hora de continuar, é hora de insistir em favor de um país mais justo e desenvolvido e de um Maranhão que lhe siga os passos.


2 UMA CARTOGRAFIA PARA O PENSAMENTO INQUIETO


        Em menos de cinqüenta anos os brasileiros construíram a economia de uma nação que deixou de ser o 48o PIB do mundo, um país periférico no cenário internacional, que exportava pouco mais de 1 bilhão de dólares, onde o café representava 50% do total, passando a figurar, nos dias de hoje, entre as 10 maiores economias do mundo. Um país que atingiu médias de crescimento anuais em todo o século XX só superáveis pela China. Um país que produziu economistas geniais como Caio Prado Junior, Octávio Gouveia de Bulhões, Eugênio Gudin, Ignacio de Mourão Rangel, Celso Furtado, Mário Henrique Simonsen, Conceição Tavares, e tantos outros de grande valor.

        Mas ainda há um lado nebuloso, sombrio, que impede uma comemoração plena. Trata-se do Brasil das desigualdades sociais e regionais, da concentração de renda, do desemprego, das dívidas interna e externa, dos problemas energéticos, das altas taxas de juros, e muitos outros problemas que colocam o país em permanente posição de alerta interna e externamente.

        Nos últimos cinqüenta anos de construção do desenvolvimento brasileiro passou-se da crença geral que a solução dos problemas brasileiros dependia da industrialização e da modernização das forças produtivas para uma outra, que durou até recentemente, de um alentado desencanto com o futuro do país. Por tudo isso, o maior desafio dos brasileiros, para os próximos anos, é, indubitavelmente, contribuir para a concretização de uma economia nacional próspera e sustentável. É com essa perspectiva que o planejamento do desenvolvimento do Maranhão deve trabalhar.

        Não dá mais para aceitar que a história do Brasil e do Maranhão é uma história de constantes esperas, de constantes adiamentos. Muitos ainda acreditam que nunca o país completa aquilo que começa a fazer. Oscila-se muito entre utopias e distopias. Há algo nascendo todo dia nesta terra e ainda são bem poucos os que conseguem perceber. Para a maioria tudo parece imóvel e resistente ao tempo.

        Quais as novas rotas para a utopia, que, segundo a pedagogia freireana, se caracteriza mais pela capacidade de anúncio e de denúncia do de negação da realidade? Mais do que em qualquer fase da história é urgente começar a montar a cartografia para o encantamento e para a transformação da realidade. O IMESC vem assumindo esse compromisso inadiável e se esforça para contribuir concretamente. Um dos seus papéis mais significativos será propor cartografias para o pensamento inquieto.


3 O IMESC COMO COMUNIDADE AMPLIADA DE ESTUDOS E PESQUISAS


        No Brasil vive-se o calor de uma nova valorização das pesquisas e estudos socioeconômicos aplicados que, independentemente das vontades e desejos presumíveis, afetarão os velhos paradigmas e estimularão a produção de novos.

     É cada vez mais consensual entre os gestores que as instituições de pesquisa aplicada, sejam quais forem suas formas de organização, deverão desenvolver uma pesquisa de qualidade, associada à produção científica e tecnológica, bem como à manutenção de vínculos sólidos com a comunidade, expressos em ações que demonstrem responsabilidades sociais.

        O IMESC poderá ser uma das respostas a esse desafio. É um projeto em construção e, como tal, fatalmente passará por estágios de legitimação técnica, além da verificação de sustentabilidade institucional. O recurso mais importante a ser captado agora, para torná-lo viável é o sonho, o desejo, o encantamento. Outros recursos são também indispensáveis, como equipamentos e infra-estrutura física, cada vez mais apropriados ao seu desenvolvimento.

      A proposta inicial para o IMESC é que se institua como comunidade ampliada de pesquisa, uma modalidade de pesquisa-intervenção que busca a construção do conhecimento a partir das experiências concretas dos pesquisadores em seus ambientes de trabalho e contextos maiores. Para começar não se dependerá fortemente de recursos externos, só da riqueza existencial que cada um possui e guarda como tesouros valiosos.

        Desde o início do processo de recriação vêm sendo discutidas e aprovadas as idéias centrais, objetivos, estratégias, metodologias, etc.; em segundo lugar, oficinas de futuro vêm sendo realizadas, voltadas à construção de projetos coletivos, culminando com o desenho de espécies de árvores dos sonhos, para, em seguida identificar as “pedras no caminho”, aquelas que dificultam atingir desejos coletivos; em terceiro lugar, são mantidos diálogos sobre as razões e fundamentos dos problemas e dificuldades que fazem com que as pedras entrem nos sapatos ou maltratem os pés dos caminhantes, sendo uma viagem em busca de informações e conhecimentos que auxiliem a conhecer a realidade; em quarto e último lugar, vem a necessidade de elaborar a cartografia das ações a serem realizadas e sobre o que é necessário para poder realizá-las e concretizá-las.
 
    Os tópicos mapeados são trabalhados sob diferentes enfoques e metodologias. O primeiro passo é organizar seminários de estudos em que os temas mais prioritários são examinados coletivamente e como os mesmos são tratados na literatura nacional e internacional. São indispensáveis também realizar oficinas de escrita compartilhada, onde os pesquisadores e analistas exercitem suas autorias e co-autorias. Tudo isso poderá levar o IMESC a um processo que Célia Linhares denomina de “sistematização aprendente de saberes, conhecimentos e fazeres.”

       As primeiras experiências de comunidades ampliadas de pesquisa ocorreram na Itália, nos anos 1960 e 1970, envolvendo representantes do movimento sindical e grupos de profissionais que buscavam transformar ambientes de trabalho nocivos em ambientes saudáveis. As comunidades procuram assim articular os saberes acadêmicos, formais, científicos e os saberes informais, buscando ir além da simples separação entre ambos. Todos os atores se tornam co-autores da pesquisa, portadores de saberes específicos. Suas raízes teóricas estão nos italianos Antonio Gramsci e Ivar Oddone e, no Brasil, em autores como Célia Linhares, Maria Elisabeth Barros de Barros e Victor Vincent Valla.

        A metodologia não separa, portanto, sujeitos e objetos de pesquisa. Pierre Lévy conceitua o método como “ecologia cognitiva”, pois reconhece como portadores de história, sonhos e projetos tanto os seres humanos como as coisas que os cercam, formando o que Célia Linhares denomina de “um coletivo misto e impuro, depositário de formas ampliadas de comunicação e pensamento”. Exemplifica com os versos de Chico Buarque: “Morena de Angola/que tem um chocalho/amarrado na canela/ninguém sabe se é ela/que mexe com o chocalho/ou é o chocalho que mexe com ela”.

        A pesquisa-intervenção, por outro lado, visa desenvolver questões e problematizações que levem ao entendimento das situações presentes no ambiente e das maneiras de como superá-las. Como implica na formação de comunidades ampliadas de pesquisa, a ação de investigar, pesquisar não se restringe a técnicos especializados em ações isoladas. Implica, pois a necessidade da pluridisciplinaridade e na pluriprofissionalidade, além da autonomia coletiva dos participantes. No IMESC, a convivência intelectual entre pesquisadores experientes, especialistas, técnicos recém formados e estagiários transcorre de modo promissor.

        As comunidades poderão ser a contribuição inicial do Instituto à luta pelo resgate das utopias, numa hora em que o mercado tem poderes dilapidadores do sentido da existência humana e da vida em sociedade. Pode ser também a fonte de energias para que a Instituição cresça e cumpra o seu papel de fomentador de viveiros onde serão fertilizados conhecimentos úteis e necessários ao enfrentamento dos desafios ligados à conquista da sustentabilidade do desenvolvimento maranhense.


4 A RETOMADA DOS ESTUDOS CONJUNTURAIS


         O economista Felipe de Holanda, colaborador destacado do IMESC, um dos mais brilhantes profissionais da área, vinculado à Diretoria de Pesquisa, sob a direção primorosa e competente de Hiroshi Matsumoto, mestre de várias gerações de economistas maranhenses, contando com o apoio do técnico Dionatan Carvalho e colaboração de Tibério Martins, Sadick Nahuz, Wallison Ferreira Lima e Ana Theresa Boueres, reinauguraram  os estudos conjunturais no âmbito institucional, herdeiro que é o IMESC do antigo Instituto de Pesquisas Econômico-Sociais  Informática – IPEI.

          Há o reconhecimento na literatura de que o conceito de conjuntura nasce ao redor da metade do século XIX, quando os estudiosos da economia descobrem que as crises econômicas mantinham regularidade e periodicidade.

        Ao longo dos anos os estudos técnicos sobre a matéria evoluíram muito, reforçados pela era dos computadores e dos bancos de dados públicos e corporativos.

        O que se espera hoje do analista conjuntural é que, no mínimo, tenha o domínio da teoria e da metodologia pertinente a essa área do conhecimento. Embora se saiba que a análise de conjuntura, mesmo largamente praticada, ainda não tenha conseguido, pelo menos no Brasil, se instituir como um campo diferenciado e claramente reconhecido nos ambientes acadêmicos da Ciência Econômica, da Ciência Política e também da Sociologia.
 
        No âmbito da economia, por seu turno, desde o início do século XX, a análise conjuntural já começava a dar os primeiros passos. O marco emblemático dessa afirmação está no ano de 1917, quando é criado o Comitê de Pesquisa Econômica da Universidade de Harvard, e são divulgados os resultados do seu pioneiro e reconhecido "barômetro econômico".

        No caso brasileiro, a análise de conjuntura foi um instrumental muito utilizado no final da década de 70 do século passado, quando da reestruturação dos movimentos sociais, por ocasião da saída do regime ditatorial, instalado em 1964. São várias as instituições e organizações da sociedade e organizações não-governamentais que passam a desenvolver este tipo de atividade. Um dos mais atuantes foi o IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Socioeconômicas), sob a liderança de Herbeth de Souza, o Betinho. A crise que se instalou na década de 90 reduz os trabalhos de análise conjuntural no país, vindo a se intensificar novamente a partir dos anos iniciais do corrente século XXI, sobretudo com a subida ao poder do governo Lula e a retomada do desenvolvimento econômico e social em novas bases.
 
        O que entender, afinal, por conjuntura? Uma das mais comuns definições é a que associa conjuntura a um recorte temporal de prazo curto. Surgem dificuldades: em que consiste o curto prazo em política, em economia e em sociologia? O primeiro esforço é ter clareza sobre qual a concepção de tempo com que se deve operar. O tempo dos ciclos econômicos, como nos estudos inaugurais da conjuntura econômica, ou o tempo cumulativo e ascendente de Marx ou Weber e suas teorias macro-históricas? Lembrando ainda dos tempos contemporâneos, mais operacionais, nos quais o trabalho do analista econômico consiste em, dadas certas hipóteses, antecipar o que vai acontecer com elementos focais da macroeconomia, como inflação, câmbio, juros, emprego, renda, entre tantos outros, em um determinado ponto temporal, apoiando a tomada de decisões de agentes públicos, empresariais e sociais.

        Algumas correntes também definem a análise de conjuntura como um estudo sobre as possibilidades que existem na realidade, não se resumindo apenas a um estudo “sobre” a realidade. Está claro que para fazer a interpretação sobre a dinâmica conjuntural, muitos fatores atuam ao mesmo tempo, a começar pela própria intencionalidade de transformar a realidade por parte dos analistas, o que pressupõe não ser possível captar os fenômenos explicativos da conjuntura sem a recorrência a instrumentais analíticos consistentes. Outro aspecto é que análise conjuntural implica uma visão de mundo, logo está associada a uma análise que passa também pela dimensão estrutural, tornando-se muito difícil construir a análise sem procurar as articulações e os nexos entre o institucional e o estrutural, dentro de uma perspectiva sintetizadora.
 
        A análise conjuntural implica, portanto em várias escalas: pode ir dos domínios do poder local e atingir o estadual, o regional, o nacional e o internacional. Isso é importante porque quanto maior a escala de tempo escolhida, maior a dificuldade de análise dos fatos e acontecimentos.
 
        Além do mais, os estudos e análises conjunturais articulam o hoje, o ontem e o amanhã com a intenção de abrir a projeção de cenários esperados e possíveis. A capacidade intuitiva e a criatividade do analista conjuntural contam muito, portanto. Sem uma análise que abra novas projeções sobre a realidade, perde-se o valor político para a práxis.
 
        Vê-se, assim, que o trabalho do analista envolve atividades relacionadas à análise de conjuntura e à construção de cenários prospectivos. Para tanto, exige preparo profissional para interpretar e formular diagnósticos sobre a situação conjuntural, bem como para a elaboração de análises prospectivas e aplicação às estratégias de desenvolvimento das políticas públicas, empresariais e societais.

        É também quase impossível elaborar estudos e análises sobre a conjuntura, onde se inclui a dimensão econômica, sem levar em consideração a questão política, requerendo dos analistas uma base mínima, conceitual e teórica, conjugada a uma experiência, ainda que mínima, em análise de conjuntura e cenarização. Sem esquecer os instrumentais básicos, vinculados aos fundamentos teóricos, metodológicos e conhecimento institucional, sem os quais o profissional da área terá muita dificuldade para identificar as variáveis e informações relevantes, lado a lado com a prática de utilização destas informações.

                Para o bom desempenho do seu trabalho, especialmente aqueles que fazem a análise da conjuntura econômica, devem aperfeiçoar-se sobretudo nos seguintes campos de estudo:

a)     Nos fundamentos macroeconômicos para a análise conjuntural, com o objetivo de conhecer os elementos de teoria macroeconômica que permitem: a) compreender a dinâmica cíclica de economias de mercado, a ação da política econômica e o funcionamento do sistema financeiro; b) nos instrumentos teóricos necessários para a definição de métodos de previsão de curto, médio e longo prazo;

b)     na análise de conjuntura econômica brasileira (e maranhense, em especial ), procurando relacionar os fundamentos estruturantes da realidade econômica com a dinâmica das decisões tomadas nos vários contextos, sempre procurando identificar as repercussões e impactos na sociedade e na economia sob análise;

c)     na análise da conjuntura econômica internacional, objetivando conhecer o quadro geral das principais instituições e regras que regem as relações econômicas internacionais, bem como os atores e variáveis determinantes a serem acompanhados para se ter condições de entender o movimento atual e as tendências da economia mundial;

d)     em métodos e práticas de construção de cenários macroeconômicos, com a finalidade de introduzir as principais técnicas de análise prospectiva e suas aplicações à construção de cenários macroeconômicos, com ênfase central na  integração entre a ferramenta de cenarização e a elaboração de modelos econômicos. Vindo em seguida a apresentação das relações entre a geração de visões qualitativas sobre o futuro - a partir das quais são fixadas as variáveis exógenas – e sua aplicação a modelos de consistência macroeconômica;

e)     em métodos quantitativos com o objetivo de conhecer os principais conceitos estatísticos relacionados a  compreensão e a crítica de fatos conjunturais de natureza econômica. Seu foco será voltado para a construção e interpretação de indicadores econômicos e a análise de séries econômicas. Realce especial deverá ser dado ao emprego de matrizes de insumo-produto para a realização de simulações.

      Dois outros campos de investigação são importantes para o desenvolvimento dos estudos conjunturais. O primeiro está ligado ao conhecimento e estudo das estratégias corporativas empresariais, no qual foca-se a questão da estratégia empresarial desde uma perspectiva associada à gestão das organizações, buscando apresentar abordagens contemporâneas de análise e de gerência estratégicas.

        O segundo campo é o associado à análise da conjuntura política, como já destacado anteriormente, com o objetivo de focar alguns conceitos e informações que contribuam para a incorporação da dimensão política na análise da conjuntura. É quando são examinados aspectos que, embora não tratados especificamente no âmbito da economia, interferem sobre as decisões de política econômica e sobre os próprios rumos dessas atividades.

        Além dos aspectos mais teóricos e metodológicos vistos anteriormente, outros de natureza mais organizativa devem ser considerados para o desenvolvimento da área de análise conjuntural. A começar pela necessidade de um marco teórico, como também já referido, ou seja, de um campo de conhecimento abordando teorias sobre a sociedade, sobre a história e a política, por exemplo. Conhecimentos sobre a formação social, cultural e político econômica do Brasil (e do Maranhão) e a história de luta dos movimentos sociais são indispensáveis.

        Outra providência a considerar, na linha da organização da área de estudos conjunturais é a que se refere à informação. A análise de conjuntura depende de um grau avançado de informações sobre vários campos da realidade. Neste sentido, é importante se ter fontes de informação, sobre pessoas, dados, fatos e contextos.

        Nunca perder a preocupação com a definição de escalas de tempo e espaço nas análises conjunturais, como já tratado também anteriormente. O corte temporal pode variar do marco zero ao infinito. O problema é que, quanto maiores as escalas de tempo e espaço, mais complexas tornam-se as análises.

        O analista da conjuntura econômica, embora focado apenas em uma dimensão do fenômeno, não pode perder a noção da totalidade. Além de não perder essa referência maior, a análise da conjuntura será sempre processual. O fenômeno analisado se insere em um contexto mais amplo e o seu movimento obedece a um determinado ritmo processual.

        Pelo que se viu, de modo muito sintético, a análise conjuntural é uma análise de fatos e acontecimentos. Há um cenário no qual os acontecimentos se processam. Decorre daí a importância de qualificar os cenários em um tempo e espaço. Desde simples espaços de rua a outros mais complexos, como os espaços e tempos institucionais.

        Espaços fechados ou abertos, de elite ou de massa, ativos ou passivos. Atuam também atores individuais e coletivos. Os principais atores serão sempre os coletivos, os grupais, e outros. Sem deixar de reconhecer que existem atores individuais que têm ou poderão ter importância histórica. Não esquecer jamais a análise da relação de força – qual força tem esses atores numa perspectiva mais política? Que capacidade operativa possui a sociedade para desenvolver determinadas ações, com poder de modificar a relação de forças dominante?

        Por fim é preciso construir a síntese – requer clarividência, conhecimento e experiência no sentido de articular uma visão de estrutura com a conjuntura. A práxis política se baseia na capacidade de antecipação, não esquecer disso.


5 ANÁLISE CONJUNTURAL E CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO DESMISTIFICADOR


        O objetivo maior de áreas de estudos conjunturais em institutos de pesquisas socioeconômicas aplicadas, vinculados ao planejamento do desenvolvimento é contribuir para a construção de conhecimentos sobre a realidade na qual atuam, dentro de uma perspectiva de aplicabilidade às políticas públicas.

        Além disso, em lugares como o Maranhão, nos quais ideologias e dogmas possuem muita força, produzir conhecimentos mais consistentes e apoiados em bases científicas, assume um papel relevante e estratégico.

        Foi dentro desse prisma que o IMESC foi gestado por seus idealizadores e fundadores: um lugar especial, com idoneidade ética para herdar o legado de seus institutos antecessores (IPEI, Fipes e IPES) e com capacidade intelectual suficiente para passar a limpo a formação social maranhense, despindo-a dos mitos e assombrações.

        Não será obra que se concretizará em pouco tempo. A pauta a ser enfrentada é das mais complexas, pois suas raízes mais profundas estão sob pedras que se misturam nos labirintos escuros de mentalidades extraviadas no tempo. Mas não é impossível encontrar a rota que levará à saída dessas cavernas sombrias. As duas grandes universidades públicas do Maranhão – UFMA e UEMA – apesar das dificuldades, nunca deixaram de trabalhar e contribuir nessa missão heróica. Não há como desconhecer que a produção intelectual mais expressiva sobre o Maranhão passou sempre por seus departamentos acadêmicos e por seus pesquisadores e estudiosos de um modo geral.

        Assim como, desde quando começou a atuar, mais precisamente nos primeiros anos da década de 70 do século passado, o complexo IPEI/FIPES/IPES foi responsável por uma das mais relevantes produções sobre os problemas e desafios do desenvolvimento maranhense, produção esta que se manteve viva até meados dos anos 80 do referido século, quando se inicia a derrocada do aludido complexo institucional, fazendo com que sua produção entrasse em franco declínio.

        Os tempos são outros. Todos amadureceram: a própria viagem e os viajantes. O Maranhão não tem mais o rosto que tinha há 50 anos atrás e aqueles que naquela época mal sabiam caminhar, hoje já têm pernas gastas e mãos calejadas de tantas idas e vindas em jornadas incessantes vida à fora.

        A lição maior aprendida nesse balançar sem fim do relógio do tempo impassível é fazer com que a criação do IMESC, a sua missão cívica e o seu compromisso político-institucional, se materializem para a consecução do objetivo comum de transformar os estudos conjunturais em instrumentos capazes de colaborar para a modernização e democratização desse Estado, no bojo das quais novas interpretações, plenas de veracidade e criatividade, desconstruam os mitos e assombrações e o Maranhão possa, finalmente e definitivamente,  ingressar no século XXI.

        Para isso é preciso mente inquieta e coração de estudante. Um dos maiores desafios para a análise da conjuntura maranhense é compreender as inter-relações das partes com o todo. O que só será possível de obter se houver um mapa que possibilite viajar na realidade circundante e nas outras mais distantes e muito mais impenetráveis.

        O caminhante precisa ser metódico. Jamais deverá se deixar fascinar pelo reducionismo maniqueísta e muito menos pelo dualismo simplista, ou ainda, se apaixonar pelos trejeitos da ideologia da decadência maranhense, tão poderosa que foi capaz de enlaçar inúmeras gerações de conterrâneos.

        Na mesma direção, não se tornar prisioneiro de análises simplistas, aparentemente mais fáceis de fazer e até mesmo de convencer, mas muito difíceis de merecer atenção nos círculos mais exigentes ligados à produção do conhecimento. O simplismo não consegue captar a essencialidade dos fenômenos sob foco, sejam eles econômicos, sociais ou políticos.

        O resumo de tudo, é que análise de conjuntura é muito mais análise de conjunto do que uma análise de corte temporal curto. É sobretudo a intensidade e profundidade do olhar sobre o conjunto do que a preocupação com a perspectiva temporal da análise, que sempre será importante, mas jamais será o essencial.


        O engenho e a arte do analista da conjuntura se manifesta toda vez em que for capaz de reger, de forma harmônica, um grande número de variáveis econômicas, sociais ou políticas, que se encontram em relações complexas e múltiplas, produzindo uma peça consistente de argumentos capazes de explicar o comportamento dinâmico dos fenômenos sob investigação. Quando isso acontece os mitos e as assombrações não farão mais sentido e desaparecerão no horizonte que se vai abrindo. E uma nova melodia inquietará os espíritos, estimulando-os a prosseguir, sempre.