quinta-feira, 17 de março de 2016

A ESCOLA DE CANGOTE


Por Raimundo Palhano

            Cangote não é mais uma mancha na geografia de Barreirinhas. Localizado a cerca de 30 km da sede do Município, habitado por uma comunidade formada por algumas centenas de almas, que, pela vida afora, convivem mais com a mata e os seus mistérios do que com a civilização, padece de um isolamento antigo, atenuado pelas antenas parabólicas e uma estrada carroçável feita de depressões e sinuosidades recorrentes.

No dia 10 de março de 2016, o prefeito Léo Costa, filho da terra, fincou naquelas paragens do fim do mundo a maior e mais bonita de suas bandeiras: a escola digna municipal, uma iniciativa surpreendente e ousada, voltada a promover a educação de qualidade e tantos outros benefícios daí decorrentes, a comunidades acostumadas e conformadas com o abandono, o descaso e o desprezo histórico do poder público para com a educação dos seus filhos, jovens e idosos.

         Como uma miragem inatingível, ao cair da tarde, os convidados para a inauguração viram surgir, magicamente, no lugar do esqueleto em pedaços de uma escola rural indigente, como muitas espalhadas por esse Maranhão de todos nós, uma unidade escolar reluzente, limpa, projetada, com salas de aula climatizadas, coreto à porta para recepcionar os alunos, sala de diretor e professores, sistema de vigilância pela internet, lugar para alimentação escolar e para os livros de leitura, espaços de circulação e um terreno pronto para crescer.

         Antes do corte da fita inaugural e do descerrar da placa de bronze, símbolos maiores do sepultamento de um tempo de trevas e início de outro, feito de claridades, bem mais fortes que as dos fogos de artifícios anunciadores do fato extraordinário, o povo ali presente percorria o recinto, tocando-lhe a pele, sentindo-lhe o sangue correr por veias de esperança.

            O ato litúrgico pela ressurreição da crença no futuro, também antecedendo o rito de passagem, coordenado pelo prefeito Léo, o incansável, que também passou a ser confundido com Davi, o vitorioso sobre o Golias das indignidades contra as crianças, encheu-se, de repente, de contagiante inspiração, e vozes as mais diversas, desde autoridades da área, vereadores do povo, lideranças comunitárias e educacionais, estudantes, pais, anônimos e todas as línguas que não puderam se exprimir, explodem de júbilo, perplexidade e surpresa diante da graça recebida e por décadas negada àquela gente.

         E o prefeito Léo Costa falou por último, antes de dar a escola por inaugurada, fazendo agigantar-se o seu corpo e sua alma, como um missionário perfeito.

   Ensinou como multiplicar os pães, mesmo em tempos de trigo escasso e caro. Contou como fez para transformar a água pequena em cachoeiras de sonhos. E contou a sua estória e deixou claro porque estava fazendo história. E disse a todos que o milagre não estava acontecendo só ali. Lembrou os povoados de Bacuri, Passagem do Canto, Guarimã, Bartolomeu, Axixá, Andreza, Mumbuca, Boi/Borges, Piquizeiro e Baixa D’Água, comunidades que também souberam transformar cinzas e escombros em escolas municipais dignas. E foi além. Disse das muitas unidades que serão erguidas do chão batido, já programadas, contando com o apoio dos governos estadual e federal, estes últimos oriundos do PAR.

            Depois da solenidade, tocados pela festa popular e pelas muitas emoções, pôde-se perceber claramente que a solução não chega sem utopias e os milagres do impossível.

  A escola digna municipal profetizada por Léo Costa, que já deixou de ser dele, demonstra que as soluções são viáveis quando encontradas a partir das condições de vida predominantes contextualmente. Sem esse discernimento dificilmente o seu governo teria avançado tanto, principalmente nas áreas da educação e da saúde.

 O processo de povoalização da rede escolar e de interiorização da rede básica de saúde romperam uma tradição antiga, caracterizada pela inacessibilidade aos serviços públicos básicos aos povos do interior. Ao priorizar o emparelhamento dessas duas políticas públicas, o governo Costa, além de democratizar o acesso aos serviços públicos essenciais de educação e saúde, investe claramente na melhoria dos indicadores de desenvolvimento humano de Barreirinhas, criando as condições objetivos para a sustentabilidade do seu desenvolvimento.

  Escolas como a de Cangote representam o ponto de partida para uma reinvenção educacional. A cabeça brilhante do prefeito barreirinhense precisou escapar das armadilhas da onipotência dos métodos pedagógicos para chegar ao ponto que Célia Linhares denomina de ultrapassagem instituinte, aquela em que se supera a ditadura das imposições inquestionáveis e das definições consagradas, pelo mergulho profundo nas condições de vida de todos e de cada um dos seus conterrâneos, na busca incansável das soluções aos problemas cruciais daquela sociedade.

  São escolas dignas porque contribuem decisivamente em favor do direito de aprender das crianças dos Lençóis Maranhenses e de sua capital espiritual, Barreirinhas. Também porque rompem uma prática desprezível, pela qual o interior é tratado quase sempre como o lugar dos descartes das escolas das áreas urbanas.

  Cangote, enfim, é a parte posterior do pescoço, como todos sabem. Um nome de origem latina, como boa parte dos que formam a língua portuguesa. Significa capuz, cabeça. Quando muito musculoso, lembra arrogância e soberba. Tem, por outro lado, um poder natural, declarado pelos poetas: a gente tem que beijar.  O outro poder descoberto por Léo é o de resgatar a autoestima dos moradores, sem o que terão muitas dificuldades para superar os desafios de amanhã.

   E são grandes e pesados todos eles, embora ultrapassáveis. A miragem cultural que emergiu da terra árida se desfará em pouco tempo se não for preenchida por um projeto pedagógico competente e viável, inserido em um amplo programa institucional de desenvolvimento da educação do campo, unindo desejos e vontades dispersos por décadas, capazes de articular o sistema público de ensino em uma direção comum, na qual a escola e o direito de aprender das crianças, jovens e idosos seja o objetivo maior de todos.
 

   Se isso acontecer e, certamente, acontecerá, pois esta é a profecia do Prefeito e a vontade dos gestores educacionais e escolares, a experiência de Barreirinhas poderá ser uma saída inteligente e viável aos milhares de municípios brasileiros, onde estão os maranhenses, que, ainda hoje, passam pelo constrangimento cultural e político de não terem resolvido um centenário problema estrutural de suas políticas públicas: terem fracassado naquilo que poderia ser a maior de suas prioridades – garantir o direito de aprender e sobreviver de suas crianças.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

PLANOS DE EDUCAÇÃO: DAS GENERALIZAÇÕES À EFETIVIDADE


                                                                                                                                                                                                       por Raimundo Palhano


O Plano Nacional de Educação-PNE completou agora em junho de 2015 o seu primeiro ano de vida já em situação de inadimplência, o que não vale explorar agora. Ainda é cedo. Sugiro acessarem o portal da Campanha Nacional pelo Direito à Educação e lerem a boa reflexão sobre o assunto.

O resultado sinaliza na direção da luz amarela. O PNE é um bom plano, não resta dúvida, melhor do que o primeiro, encerrado em 2011. Sua grande fragilidade é a falta de fundamentos e de paradigmas claros sobre a nova engenharia educacional a ser produzida para ficar no lugar da atual, falida e inviável.

Tão verdadeiro que o próprio governo convidou o enigmático Magabeira Unger para escrever os seus fundamentos gerais, dada a verve reconhecida do mencionado professor. Tarefa para um mágico: revestir um plano eminentemente operativo com as subjetividades de uma “pátria educadora” metafórica, sem inspiração, e ainda profundamente descreditada.

Uma das virtudes do PNE é mapear quase todas as questões que atormentam a educação brasileira contemporânea. Seu grande defeito: incapacidade de juntar as suas peças em um projeto uniforme de caráter instituidor. A maior das ameaças à sua credibilidade e exequibilidade: ser visto como uma profusão de metas e estratégias sem conexão alguma, seja pela falta de foco geral; seja pelas limitações de muitos gestores educacionais, que terão dificuldades para fazer a correta aplicação das estratégias, tanto por limitações técnicas, quanto por questões infraestruturais.

Ao se limitar em definir metas, muitas delas imprecisas e a definir mais de duas centenas de estratégias, deixa aos demais entes da federação, a começar pela própria União, de onde emana, ao Distrito Federal, aos Estados e aos Municípios o descomunal desafio de transformar o cardume de medidas presentes nos planos em realidades palpáveis.

Descomunal sobretudo pela impossibilidade de cumprir a sua principal finalidade, que é transformar o padrão de qualidade da educação nacional, sem que fique clara a configuração de um novo pacto federativo capaz de redistribuir os recursos financeiros, institucionais e pedagógicos de modo adequado às necessidades dos contextos e à garantia do direito de aprender das crianças, jovens, adultos e idosos deste país.

Uma boa política de educação para o Brasil e para o Maranhão especialmente não devem se fundamentar no vale quanto pesa, ou seja, em uma lista cada vez maior de medidas para combater os déficits estruturais que foram se acumulando anos a fio, por imperícia ou por omissão, sem debater com a sociedade e suas instituições credenciadas, e sem o conhecimento prévio dos limites e possibilidades reais de superação.

Edgar Morin, em sua última passagem pelo Brasil, em menos de dois anos atrás, afirmou, respaldado pela envergadura dos seus mais de noventa anos, que a crise da educação na ordem globalizada atual se deve à fragmentação dos saberes. Sua reflexão parte da ideia de que acumulamos cada vez mais saberes e as escolas não estão sendo capazes de organizá-los.

Creio que a involução educacional em nosso meio não se deveu somente a isso ou mesmo à falta de ideias, de propostas ou de iniciativas. Basta olhar o primeiro Plano Nacional e este último, de 2014, e os milhares de planos estaduais, municipais e do Distrito Federal. Um verdadeiro e enorme caleidoscópio, ou mesmo um gigantesco arco-íris, que continuam misturando, como na maior parte das iniciativas semelhantes, as mesmas cores de sempre, faltando precisão e sobrando generalidades.

O Plano Nacional de Educação e os decorrentes Planos Estaduais e Municipais estarão condenados ao insucesso se não forem capazes de organizar as ideias que os informam na direção de uma nova maneira de conceber, estruturar e gerir o sistema que substituirá o atual modelo, cada vez mais inadequado ao enfrentamento dos gravíssimos problemas que recortam e precarizam a educação brasileira, manifestos nos medíocres desempenhos das unidades da federação.

Cada vez mais me convenço da prioridade e da urgência que devem ser dadas a uma nova política educacional apta a tirar o Brasil dos últimos lugares e o Maranhão da lanterna dos rankings educacionais. A sensação que tenho, vendo o andar da carruagem, é que continuamos ainda às cegas, confusos em labirintos de vontades, de interesses corporativos, de paradigmas desconexos, de dissipação de recursos financeiros e de inteligências curtas.

O ponto de partida é a real valorização do universo municipal, invertendo-se a pirâmide de recursos. União e Estados precisam romper com as práticas tradicionais e com a lógica assistencialista da cooperação com os municípios. Introduzir o princípio da subsidiariedade é indispensável na futura governança. O que couber ao município deve ser assegurado e para isso as relações inadequadas de hoje, que incapacitam e muitas vezes envergonham o poder local, precisam ser superadas. Para que isso venha a ocorrer o eixo de interesses deve mudar radicalmente: sair dos privilégios e interesses corporativos contextualizados para atingir o estágio superior representado pelo direito de aprender das crianças e dos estudantes.

Grandes cabeças acreditam que os Planos Decenais de Educação estarão a salvos pelo simples fato de serem revestidos da condição de políticas de estado. Estariam, portanto, menos vulneráveis às conjunturas, aos humores dos governos de plantão e tudo mais que desperta apetites imediatos e arbitrariedades. Em países como o nosso, marcados por assimetrias sociais graves, acreditar apenas nessa condicionalidade é no mínimo temeroso. Não temos no Brasil e, muito menos no Maranhão, respeito às políticas de estado. Aliás, não seria exagero dizer que, ao longo do tempo, muitos grupos que assumiram o poder estatal, nem mesmo tiveram clareza do que se tratava, quanto menos praticá-las.

O atual Plano Estadual de Educação do Maranhão é exuberante na arte de ir fundo na escavação de sonhos díspares. Enquanto o PNE se atrapalha na tentativa de juntar as peças soltas de um sistema educacional extremamente pulverizado entre 4 entes federativos, que não sabem se articular na linha da efetividade, o Plano Estadual de Educação sonha para dentro e para fora e ainda quer mais: pretende chegar à estratosfera. Ao que parece, ações do governo estadual precisam chamar o PEE à razão.

Devemos festejar a iniciativa de muitos municípios maranhenses que se empenharam decisivamente na aprovação de seus Planos de Educação pelas Câmaras Municipais, procurando cumprir prazo determinado em Lei. Muitos chegaram a sacralizar a iniciativa, recheando seus planos com caracterizações socioeconômicas, geográficas e ambientais eivadas de solenidade. Em vários municípios a elaboração e aprovação do PME foi muito mais um ritual eclesiástico do que uma realização técnica voltada ao planejamento educacional. É o preço que se paga pela adoção de uma metodologia de elaboração pré-formatada, que encaminhou os planos municipais a uma matriz adotada por quase todos.

O que se precisa saber é que a hora de virar a página bate à porta.  A matriz de apoio produzida pela União e pelos Estados ajudou decididamente para a elaboração dos Planos, mesmo induzindo muitos municípios a seguirem a mesma trilha. Deve-se muito aos apoios recebidos do sistema federal e do sistema estadual. 

O que precisa ser feito agora é a minimização dessa influência, evitando que o fato não engesse a imaginação, a criatividade e as riquezas contextuais, permitindo que os educadores e gestores locais consigam transformar as metas e estratégias em programas, projetos e ações concretas e necessárias à reinvenção da educação pública municipal até o final da próxima década.

                                                                 

sexta-feira, 3 de abril de 2015

PELOS 80 ANOS DE JACKSON LAGO



Por Raimundo Palhano


Entre os dias 6 a 19 de abril, o Centro de Criatividade Odyllo Costa, filho, abrigará a exposição fotográfica comemorativa dos 80 anos do governador Jackson Lago, que aconteceria em 1º de novembro do ano passado. Mais uma oportuna iniciativa do Instituto que leva o seu nome, dirigido pela delicadeza da grande dama Clay, e de um vasto número de parentes e admiradores do saudoso patrono.

A memória maranhense é inelástica. Não costuma homenagear a quem merece. Aqui só é quem pode e quem tem. Placas e pergaminhos em geral, só servem para quem os concede e para quem os recebe.

O passado e os seus feitos são desprezados ou esquecidos tranquilamente, indo para a vala comum de sangues e honras derramadas, soterrando-se uma das culturas mais genuínas deste país.

É visível o predomínio de uma incapacidade crescente de entendimento, discernimento e senciência a respeito do passado, presente e futuro do Maranhão.

Digo isso com muita dor no peito, ao render esta pequena homenagem a um dos maiores líderes políticos de todos os tempos no Maranhão, o governador Jackson Lago, a propósito do significado do que foram seus 80 anos, não concretizados em vida.

Não podemos nos calar e omitir diante do destino trapaceiro que nos impõe esse fado.

Embora afirmasse sempre que o povo é maior e que em seu governo haveria de chegar a vez do povo, Jackson foi um dos melhores da raça timbira e o maior dos nossos homens públicos na contemporaneidade, justamente porque, diferentemente daqueles que o antecederam, reunia pelo menos três grandes virtudes capitais: capacidades de entender, de discernir e de se sensibilizar.

A ofensiva contra o seu governo começou pela ação infame dos adversários históricos que, desde o primeiro momento, partiram para destruir a sua reputação pessoal e, via de consequência, apagar da memória a nova pedagogia de governar o Maranhão que estava nascendo e as conquistas que certamente viriam muito cedo.

Impressiona o “esquecimento voluntário” a respeito do legado de seu governo que, em pouco mais de dois anos de atividades, conseguiu gestar dezenas de iniciativas que ajudariam a mudar radicalmente a realidade estadual, tanto em termos políticos e econômicos, como no modo de organizar e estruturar o poder governamental, na direção de uma nova promissão. 

O “nada fez” que se ouve de tantos extraviados, ofende não só a luta renhida de um bravo, como o suor de tantos que se doaram.

Há um silêncio “respeitoso” demais para com uma obra inacabada que muito poderia inspirar as novas gerações que querem ser governantes deste Estado. Uma obra que clama por respeito, certamente, mas que precisa ser colocada do avesso, como continua sendo o desejo profundo dos tantos que colaboraram para sua construção.

Jackson foi o maior não por ter sido um prefeito notável para São Luís ou um governador visceralmente disposto a ousar e, com o poder popular, construir as bases da libertação da sociedade maranhense.

Foi o maior sobretudo pelo seu passado de lutas, de ideário e por seus imperativos éticos. Foi por sua força moral, por sua capacidade de entender o Maranhão e seus desafios, de discernir sobre o que é mais relevante na existência humana e na construção política e, principalmente, por sua inigualável sensibilidade como ser humano e como sujeito histórico consciente.

Jackson, por mais que tenham tentado e mesmo conseguido sepultá-lo vivo, não passou por essa vida como um carreirista da política, ou como um equivocado colecionador de ossos: ele ajudou a escrever a história política recente do Maranhão com um atributo raríssimo: o compromisso com princípios humanitários no modo de fazer política profissional.

A virtude do entendimento esteve presente o tempo todo em seu governo e na sua maneira de governar. Desde cedo sabia que para ascender ao cargo de governador teria que compor um governo pentecostal, ou seja, que falasse por várias línguas.

Conhecia muito bem a arquitetura do poder político do Maranhão, seus apetites e interesses não declarados. A engenharia política que teceu precisava atender às exigências dos que controlavam o trono, mas foi capaz também de promover o ecumenismo de vontades, abrindo as portas dos Leões para segmentos do poder popular que, em tempo algum, imaginariam transpor aquelas sólidas paredes e assumir posições de comando e de liderança.

A capacidade de discernir lhe era transbordante. Decorria de um traço pessoal como militante e como dirigente, que era o fato de ter atingido um estágio de entendimento próprio sobre o Maranhão e os seus dilemas e desafios, obtidos pelos anos a fio de exercício de uma cidadania política ativa, por força de vínculos orgânicos sólidos com uma plêiade de líderes políticos libertários nacionais e do terceiro mundo.

Guardo com muito orgulho a imagem despojada do governador, segurando cuidadosamente sua prancheta de anotações, deslizando como um pássaro de primeiro voo, entre grupos de trabalho no Baixo Parnaíba e em tantos outros territórios, captando os sentimentos do povo esquecido do interior do Maranhão, recolhendo com todo o zelo a matéria prima que iria servir aos seus projetos para tirar o torrão maranhense do descaminho e da escuridão centenária.

A privilegiada capacidade de discernir fez com que Jackson ficasse imune à maldição do poder, aquela que acometeu Juanito, pobre coitado, que perdeu o prumo e o rumo com um simples carguinho. 

Como poucos, tinha total clareza que o poder pelo poder é a maior das ilusões. O cargo não passava de uma chance única de continuar servindo aos seus compromissos pessoais e coletivos e uma oportunidade de ouro para tornar possível um sonho.

Soube discernir, como bem poucos, e sentiu intensamente na pele e na alma, que ser o chefe dos Leões também impunha limites. Além de perceber que o lugar do poder estava acima das estruturas governamentais, aqui e em qualquer lugar, sabia de sobra que apenas o poder do trono não garante tudo que se quer. 

Tinha claro que mudar as coisas fazendo do mesmo jeito que outros fizeram era impossível de acontecer, ou, no máximo, uma enorme ingenuidade política; e, de outro, por mais que houvesse coerência entre o que se queria e o que se fazia, a mudança sempre dependeria das cabeças e dos costumes que predominassem na sociedade.

A capacidade de senciência foi talvez o maior dos seus trunfos. Os problemas recorrentes, a refrega política e a racionalidade administrativa levam o governante à frieza dos números e dos cálculos estratégicos, retirando-lhe a sensibilidade, o que Lago tinha muito, a despeito do ar sempre solene. A educação esmerada, a polidez dos gestos e atitudes, a atenção com os outros, sempre iguais, davam-lhe um carisma invejável.

Graças a esse dom incomum, o seu governo criou uma mística mobilizadora, que se espalhou em várias áreas da administração, atraindo o que de melhor existia na cultura, na arte e na inteligência local e de muitas partes do interior do Estado.

Houve um fervilhar de ideias. Poder planejador, regionalização do desenvolvimento, descentralização do orçamento e finanças, cultura popular, cooperação internacional, turismo sustentável, bacias hidrográficas, infovias, desprovincianização e tantos outros projetos inovadores nascem ao mesmo tempo.

O mais notável de tudo isso todavia foi a possibilidade única que o governo de Jackson abriu para que gerações se encontrassem para construir com ele, e sob sua inspiração, um ministério para traçar os sonhos do futuro explodindo de paixão. 

Vida longa, Governador.


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

O MARANHÃO INTERIOR


                                                                                               por Raimundo Palhano

O Maranhão é único visto como história. Por maiores que sejam as semelhanças e convergências com outros estados vizinhos, ou com mundos lá fora, há uma seiva especial gerada pelos filhos da terra. É o conteúdo do invólucro que define o seu modo de não ser, a sua esperança de morte e o seu potencial de transcendência.

Não há santo, gênio ou governo no mundo que sobreviva sem revelar e respeitar esse tesouro. Mesmo sabendo disso, em última análise, é para isso que os governos deveriam se aventurar. É para isso que santos e gênios existem.

O etos maranhense decorre de duas matrizes geográficas: uma que se origina no interior e outra que brota das ruas e das casas citadinas. Em uma perspectiva de longo prazo, os dois distintivos se separaram, por descuido ou omissão, ficando nos confins a sua parte mais esquecida: o Maranhão do interior.

Com efeito, a história do Maranhão possui características e peculiaridades que levaram à configuração desse quadro. 

O povoamento à época da ocupação europeia apresentava-se fraco, em torno do golfo maranhense e da ilha que abrigava a Capital, tendente à redução. O comércio com Lisboa era pequeno, sobretudo pela falta de braços. Não podiam importar africanos e a escravização dos indígenas gerava conflitos com o projeto econômico e catequético dos jesuítas. A tendência declinante nas primeiras décadas do século XVIII eram evidentes. Boa parte dos beneficiários das doações vivia na metrópole portuguesa, sem a menor preocupação com o destino de suas capitanias. Os habitantes do território mantinham-se afastados dos povoados, embrenhados em suas roças e propriedades. 

Trazendo o passado para hoje, mesmo decorridos tantos anos, não há como negar o atavismo presente no diálogo contemporâneo com o interior.

Outro fato histórico também influi no fenômeno. O longo período de isolamento do Maranhão em relação ao restante do Brasil, por exemplo, produziu várias consequências para a sua formação social, política e cultural, destacando-se o tardio desenvolvimento de sua economia colonial e a forte identificação com Portugal, a ponto de só aderir à Independência mediante intervenção armada, isto em 1823.

Mesmo a introdução da Companhia Geral de Comércio do Maranhão e Grão-Pará - CGCMGP, iniciativa do Marquês de Pombal, no reinado de D. José I, a partir da segunda metade do século XVIII, período em que a economia colonial maranhense assumiu relevância, produzindo algodão, arroz e mais tarde, já no século XIX, cana-de-açúcar, produtos de larga valorização à época, não conseguiu desenvolver o interior, que seguirá sendo área apenas para o emprego de fatores de produção econômica e, mais recentemente, reserva de valor para grandes empresas, elites econômicas e políticas.

Não esquecer que a “era do ouro” da economia maranhense, representada pela CGCMGP visava transformar o Maranhão, embora tardiamente, em uma colônia tropical clássica e, para isso, possuía dois monopólios decisivos: o do transporte e o do comércio externo. Indubitavelmente, lançou as bases do notável surto de desenvolvimento das quase cinco décadas seguintes, indo até às primeiras do século XIX, reforçando os fluxos e drenos que levavam para a Capital os benefícios materiais do aumento da riqueza produzida.

Tais circunstâncias influenciaram na configuração de uma mentalidade, presente nos beneficiários locais, representados por algumas centenas de senhores de terras e comerciantes, que se identificava com uma visão centralizadora e concentradora dos frutos do progresso.

O projeto cultural dessas elites baseava-se no transplante da civilização europeia. Símbolos disto: sobradões de paredes duplas, fachadas de azulejo, criadagem numerosa, filhos doutorando-se em Coimbra e Lisboa, assimilação dos gostos e modas europeias, indo do mobiliário, alfaias, baixelas, trajes, comidas, bebidas e lazeres.

A grande lavoura e o trabalho escravo, sobretudo entre a segunda metade do século VIII e as primeiras décadas do século XIX, fizeram do Maranhão uma das áreas mais ricas do Brasil, tornando São Luís, com cerca de 25.000 habitantes em 1822, a quarta cidade brasileira, atrás apenas do Rio de Janeiro, Salvador e Recife. Chegou a ter entre 100 e 150 navios por ano no porto e exportava ao redor de 1 milhão de libras, quase um terço das exportações do Brasil. No período o Maranhão era o segundo maior produtor de algodão, perdendo apenas para Pernambuco.

Formou-se então uma elite próspera no seio da qual saíram os poetas, os juristas, os políticos, os jornalistas e os eruditos, responsáveis pela distinção cultural da Província, que se sedimentará mais adiante, levando à mística construída pelos pósteros da Capital Atenas, principalmente pela sua condição de sucursal das luzes europeias, revigorando o dar as costas e o desprezo pelo interior e sua cultura, tratadas desde sempre como segunda categoria.

Impossível, portanto, não reconhecer que os determinantes que informam o etos maranhense estão associados a esses grandes momentos da sua formação social. Voltar-se mais para Lisboa do que para dentro de si, ou mesmo para o Brasil, produziu um contexto social, político e cultural que engendrou a dissolução voluntária dos vínculos originais e posteriores, responsável pela dualidade da “civilização” maranhense, colocando o interior do Maranhão no extravio de forma inexorável.

A resultante desse movimento histórico e dinâmica social produziu no imaginário e nas práticas políticas dos governantes e das elites dirigentes e seus seguidores a fixação na ideia de que o passado, o presente e o futuro do Maranhão começam sempre a partir de sua metrópole. Ao interior fica reservado o pão e o circo, itinerâncias à base de missangas, para trocas de presentes sem valor e apertos de mãos geladas, que mal servem para um “toma lá, dá cá”, no fundo, mais um golpe mortal no que restou de dignidade nas relações políticas com o interior.

Impossível mudar a realidade maranhense sem uma engenharia política que promova o reencontro das duas civilizações desgarradas. Pouco se conhece sobre o Maranhão interior; o composto de verdades está relacionado a um modo "metropolizado" de governar e de conduzir o desenvolvimento do Maranhão, concentrado e centralizado pelos palácios de São Luís.

Implodir o velho e reinventar o novo passa pela ruptura mental com essa ideologia. Começará quando o complexo cultural representado pelos 217 municípios for assimilado e incorporado pela cultura institucional, pelas estratégias econômicas e pelos partidos no poder. 

Quando o diálogo entre as duas civilizações for horizontal, aí sim será possível começar a falar em profecias ou aspirações, como revolução democrática. 

E isso só será possível porque as atuais estruturas de poder serão substituídas por outras, que precisam estar visceralmente comprometidas com a devolução do poder ao povo maranhense, representado altivamente por suas 217 bandeiras.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

DO ESTADO DE UM PARA O ESTADO DE TODOS


                                                                          

                                                                por Raimundo Palhano

A ascensão ao poder de Flávio Dino em 2015, consequência da vitória eleitoral de 2014, rompe um ciclo da história política maranhense, fenômeno iniciado por Jackson Lago, no curto período de 2007-abril de 2009, destronado pelo complexo político-jurídico reinante, ao abrir as cortinas para novas esperanças. 

Dino passará para a história da libertação do Maranhão se desconstruir a estrutura de poder político e econômico montada desde fins da primeira república (1930 em diante) e revigorada ao extremo nos últimos 50 anos. 

A sua força e liderança moral para promover uma nova cultura política dependerão da capacidade de não se deixar seduzir pelo fascínio do poder, abdicando conscientemente dos acúmulos inerentes ao papel de governador, que lhe será confiado, repartindo e compartilhando efetivamente com a sociedade local o poder que lhe chegar às mãos.

Simbolicamente pode-se dizer que a era das oligarquias acabou no Maranhão, o que vem sendo afirmado, de forma surpreendente até, pelos próprios representantes do poder moribundo. A era nova que virá já começou ontem e nascerá a cada manhã, se a noite não ofuscar a luz do sol.

Construir uma nova subjetividade sobre o Maranhão, fora dos limites do discurso tradicional empregado para justificar e condenar o atraso político e social, pisado e repisado à exaustão nas últimas décadas, é a maior das prioridades e requer, de imediato, que se faça o diagnóstico honesto do referido Estado. 

Para deflagrar o processo de ruptura é necessário ir além dos limites ideológicos do seu passado mítico, que alimentaram tanto as forças do poder único, agora perdidas e sem rumo aparente, como as elucubrações dogmáticas dos poucos heróis da resistência e seus fervorosos partidos e agremiações de oposição.

A nova narrativa para um Maranhão reinventado nascerá do entendimento a respeito de onde efetivamente decorrem os problemas do Maranhão. Os minimamente informados sabem que essa origem vem das questões políticas e econômicas não ou mal resolvidas. Mas não fica só nisso. O corte exige precisão cirúrgica e sobretudo capacidade de enfrentamento e de resolução.

Algumas mazelas estão à flor da pele. A televisão como primeiro poder é uma das mais proeminentes. Não se trata de reacionarismo contra a tv. O que precisa ser neutralizado são os efeitos nocivos de um sistema de poder que governa com as televisoras e não com a sociedade e seus desafios.

Ferir mortalmente o sistema de privilégios que foi se cristalizando no Estado, começando nas maiores cidades e se projetando na totalidade dos municípios, ocupa posição estratégica. Causa pavor a ação das várias formas de incúrias e injúrias na vida cotidiana da sociedade inclusiva. As relações promíscuas escandalosas entre esfera pública e esfera privada, tendo como epicentro a força devastadora da corrupção, exauriram a confiança da população na capacidade do estado e dos governos como entes comprometidos com a satisfação das necessidades sociais.

Colocar no lugar do morto um Maranhão vivo passa obrigatoriamente pela delicada questão da efetividade das políticas públicas. A visão megalômana de que só os grandes projetos, ou os grandes potentados, ou os imensos panteões são capazes de desenvolver o Maranhão precisa ser varrida para sempre das cabeças timbiras, inculcadas com muita eficiência pelas camadas dominantes. O novo cenário que se abre desafia a sociedade civil a assumir um protagonismo ativo, quebrando, de forma irreversível, uma inércia secular, com o que passará a dispor de condições objetivas capazes de reduzir o peso desproporcional do governo e aliados na definição de prioridades públicas.

O Maranhão é introvertido e o maranhense mais ainda. O poder imperial que aqui se instalou e se perpetuou estimulou a renúncia cívica de boa parte do povo. Os direitos civis e sociais ficaram restritos a bem poucos, deixando no esquecimento e na exclusão a maioria demográfica. A cidadania restringida reforça o papel do clientelismo, do favor, dos cabos eleitorais e da servidão voluntária, transformando boa parte da massa em carneirinhos dóceis e conformados. As classes médias tradicionais e as emergentes, que poderiam ter um protagonismo político e social mais orgânico, em geral silenciam, sobretudo por medo dos donos do poder, que fecham as portas sem piedade para todos os que não se adaptam à lógica do poder dominante.

O diagnóstico honesto do Maranhão conduzirá ao conhecimento efetivo da realidade e das potencialidades estaduais, sem o emprego de mistificações e de falsificações que impeçam os avanços socialmente necessários. É o melhor caminho para abalar a crença de que cada povo sempre tem o governo que merece, situação que reforça o conformismo social, e também a melhor estratégia para levar o governo e a sociedade a tomarem o destino do Maranhão em suas mãos. Só assim será possível vencer o medo e as inquietações sobre o futuro: tornando concreto o compartilhamento das responsabilidades com o desenvolvimento estadual.

Não há como fugir dessa convocação histórica. Há uma nova engenharia política a ser elaborada que vai além das comemorações e dos feitos que levaram à vitória nas urnas. O Maranhão não deixou de ser um território marcado pelo acúmulo de erros e omissões, completamente impunes e mesmo não revelados, que foram construindo contextos paradoxais e assimétricos, tanto no corpo como na alma maranhense. O barco pode afundar muito cedo se não for conduzido para a grande viagem que não houve. 

As alianças e coalizões costurados em bases complexas, a presença de atores políticos que se doutoraram aprendendo as lições do antigo regime, provenientes de governos divididos, fazem com que a sociedade e os formadores de opinião não esperem muito dessa classe política, o que exigirá do núcleo inteligente do governo muita habilidade e sabedoria para operar o milagre da multiplicação dos pães e da transformação da água em vinho. Milagres há para as causas sem solução, mesmo quando as nuvens do céu se escondem nos labirintos do horizonte.

Só falar em mudança é pouco. É preciso fazer acontecer o novo viável e sustentável. A classe política tradicional e boa parte da elite econômica, social e intelectual é formada por autistas nessa matéria. As intenções de mudar desses segmentos, ao longo das décadas, são e sempre foram muito tênues. O mais dramático é que serão necessariamente convocados para a missão de construir a mudança, rearmar o Maranhão institucional e mentalmente. Um desafio para o qual serão também convocados os desesperados, os frustrados e os apáticos. Isto porque a mudança do que foi para o que será, no campo da nova subjetividade, pressupõe que os maranhenses assumam a decisão de afirmar o que todos e cada um podem e devem fazer em favor do futuro desejado.

Prometer e cumprir passa a ser um exame de consciência diário e verdadeiro. Mudar a realidade significa implantar o reino do equilíbrio entre o que se promete, geralmente muito, e o que se cumpre, normalmente pouco. Impossível tomar o rumo do Maranhão nas mãos da sociedade sem o reino do equilíbrio. Uma das urgências no plano da mudança é o fortalecimento da tomada de decisões. Quando não se tem capacidade decisória, deixa-se de cumprir tudo que foi prometido. 

O Maranhão reinventado, o Maranhão mudado, a passagem do Estado de Um para o Estado de Todos guarda total correlação com a capacidade e com a eficácia diretiva do governo eleito e consagrado nas urnas de 2014, por representar as expectativas libertárias do povo maranhense. Se for capaz de atingir o coração do povo, devolvendo-lhe o poder negado quase sempre, aí sim a página será virada.

No mundo de hoje e no torrão maranhense em particular, o desafio dos desafios é governar, mesmo que o lugar do poder seja o trono. O poder público virou caricatura de interesses escusos e de mentiras. No Maranhão interiorizado, ainda provinciano e tímido, mais difícil ainda, pelo descaso histórico com as instituições, com as competências e o pouco valor atribuído à meritocracia. O Maranhão não é uma ilha; é um continente que não se comunica horizontalmente. Só um projeto de desenvolvimento continental tirará o Maranhão do sonambulismo. O Palácio dos leões precisa se transformar em castelos de todos os animais da floresta e do interior.

A herança do pacto pela não mudança não morreu completamente e nem perecerá de uma hora para outra, pois se manifesta nas castas familiares e nos micros poderes. Há uma crise política na sociedade brasileira que torna o seu sistema econômico capitalista disfuncional e faz emergir uma república mafiosa que intranquiliza os setores progressistas da sociedade, sobretudo por estimular golpes fatais na utopia, indispensável para a sobrevivência moral do Brasil como nação honrada e justa.

Decifra-me ou te devoro: eis o Maranhão a ser reinventado. Começar de novo, preferencialmente de mãos dadas com as legiões de esquecidos e excluídos dessa terra mágica. Convocar os abandonados pelas forças do elitismo. Chamar a juventude, as meninas e os meninos em cirandas de verdades e de fantasias. Deixar Brasília em seu canto e mergulhar no telúrico maranhense. Colocar os pés no chão, abrir picadas para o interior, adequar o palácio central aos desafios territoriais, criando uma rede de palácios em que o poder emana do povo. Mais do que tudo: lucidez, muita serenidade, ousadia e humildade para reconquistar a confiança e a crença do povo maranhense na capacidade e na eficácia diretiva do governo da esperança que acaba de chegar.





segunda-feira, 21 de abril de 2014

O IMPÉRIO DESPIDO


por Raimundo Palhano

                           Foram quase mil anos entre a queda do Império Romano ocidental, em 476 e a derrocada oriental, ocorrida em 1453. O maior de todos não escapou à ruína. Assim, o poder imperial que domina o Maranhão também chegará ao fim. Vive no presente mais um tremor em suas  bases, talvez o mais grave das últimas décadas.
                              A sequência de lances duvidosos e de erros gritantes cometidos pelo alto escalão frente ao jogo sucessório revela que a fadiga de poder chega às hostes do Grupo Sarney. Pode até não significar o fim do seu ciclo vital, mas indica que o reino está cambaleante, fora de rumo e sem inteligência para enfrentar a reação dos oponentes.
                              Os equívocos cometidos e os prováveis seguintes que virão só se tornarão eficazes na luta pela alternância de poder no Maranhão se a resistência oposicionista for competente no enfrentamento da crise de identidade instalada no núcleo de poder. O projeto dominante está saturado aos olhos do povo, que anseia e exige saídas concretas, sustentáveis e principalmente, confiáveis.
                              O que fez o Império Romano chegar ao ocaso foi a megalomania e o apetite insaciável pelo poder. Rômulo Augusto teve que abdicar forçado por Odoacro, um simples chefe germânico, considerado bárbaro não apenas por desconhecer o latim, como aplicado a todos, mas também pela ausência de virtudes superiores.
                              Teodósio e depois Rômulo Augusto foram destronados porque não tinham mais competência para enfrentar os problemas produzidos pelo gigantismo do Império: descontrole de preços, concentração de rendas, abuso de poder e, sobretudo, a ruptura da unidade cultural romana. Nos momentos finais do império romano, o império dos impérios, os próprios romanos abriram as portas aos que denominavam de “bárbaros inferiores”.
                              Em consagrada obra, Marshall Berman assevera que tudo que é sólido acaba desmanchando em função de circunstâncias incontornáveis. É rica a literatura internacional sobre as causas da decadência das grandes civilizações do passado e do ocaso inexorável dos poderosos. No Brasil o domínio dos poderosos também desmancha no ar, embora a ruína se processe de forma lenta, típica da formação social brasileira, centrada em uma elite dirigente parasitária.
                              No Maranhão os ciclos de dominação são mais longos ainda, motivado, sobretudo por questões culturais e educacionais, associadas ao isolamento geográfico e à conformação de sistemas oligárquicos fechados e impermeáveis. Os últimos acontecimentos do xadrez sucessório, que levaram a governadora do Maranhão a proclamar um “fico” lacônico e incontornável, demonstram que o império treme nas bases. A crise política assume proporções que ultrapassam a capacidade e o repertório de soluções a cargo dos governistas.
                              Os romanos perderam a confiança e a fé em Roma e capitularam da forma mais deplorável: optaram pela renúncia cívica a ter que suportar o peso de um poder imperial completamente extraviado, portanto incapaz de oferecer um projeto para o presente e para o futuro.
                              No mundo de hoje os poderes nacionais se fragilizam cada vez mais. Há uma ordem global econômica, militar e política que se encarrega de corroer a força das nações isoladamente. Os poderes locais no Brasil, dadas a permanência das desigualdades sociais, se fecham para durar. No entanto, o mundo está quase um só em matéria de comunicação e informação e isso enfraquece o poder das oligarquias regionais.
                              O fenômeno reforça a ideia de que o poder imperial no Maranhão caminha para o ocaso definitivo, ainda que de forma cadenciada. O Grupo não acabará de um dia para o outro. O ciclo da transição e sua velocidade dependerão da capacidade de tomar decisões das novas lideranças e do conteúdo intrínseco do novo projeto de direção política das forças que formam o contrapoder em andamento.
                              A ruina dos poderes absolutistas e dos seus impérios são de vários matizes, desde a simples fadiga pelo exercício do poder, passando por questões mais complexas de natureza política, ideológica, religiosos e culturais.
                              Como o império romano, que não desmanchou abruptamente, o poder das oligarquias maranhenses será minado aos poucos, manifestando-se sobretudo a partir do processo de deserção dos seus próprios aliados políticos. Provavelmente o poder do Grupo Sarney se extinguirá em silêncio, tanto pelo seu largo espectro, como pela desproporcionalidade de forças em disputa. À oposição lúcida vitórias em sequência já bastam, sem o que não minarão as sólidas bases de poder do Grupo, que se projeta e opera nos círculos dominantes do Brasil. É preciso entender que o “fico” de Roseana não esgotará a sua força política em apenas oito meses, e nem tampouco com a provável vitória da oposição no pleito de outubro.
                              Creio que uma das maiores urgências para um Maranhão Livre é devolver o poder ao povo e organizar o poder público na direção do desenvolvimento sustentável, que foram duas das mais importantes bandeiras do governo Jackson Lago, símbolo e vulto maior da resistência política maranhense, levado ao sacrifício por se contrapor ao sistema dominante.
                              Está aberto o desafio por um novo esforço de imaginação e de ação. O bem comum do povo, como ideia-força, assume um papel preponderante. Para que se corporifique, uma das saídas é instituir o novo planejamento, empoderado e autônomo, capaz de implementar a transformação social e política, em sintonia com as aspirações populares.
                              É urgente e impostergável assegurar o controle social sobre o orçamento público. Para que isso ocorra urge que se construa um novo municipalismo e um novo federalismo geoeconômico. Tudo isso para mudar a direção política do Estado. Tudo isso para que ocorra a supremacia da ética sobre a política e da política sobre a economia.
                              A longa estabilidade de quase cinquenta anos do reinado sarneysista no Maranhão foi quebrada de forma exemplar na primeira metade de 2004, motivada por conflitos de interesse envolvendo a então senadora Roseana Sarney, governadora do Estado por quatro mandatos e o então governador José Reinaldo Tavares. O gesto de Reinaldo foi a causa primária do abalo sísmico no mais poderoso, consistente e duradouro sistema  oligárquico da história do Maranhão.
                              Odoacro se chamava Flávio. No Maranhão dos tempos bárbaros a onda de esperança também se chama Flávio. Caberá presumivelmente a Dino a missão transcendental de liderar a construção da nova utopia maranhense. Os escombros do antigo regime precisam ser sepultados para sempre. Não será fácil superar um domínio descomunal. Reeditar práticas antigas por incapacidade de decidir certo sobre coisas erradas afundará os sonhos de alternância. É vital que se inicie o novo projeto banindo os egocentrismos, as prepotências e arrogâncias pessoais e coletivas.
                              Ao canto do cisne debilitado deverão soar trombetas de solidariedade, compaixão e de convite à ação transformadora. Anunciando cavalgadas cada vez mais numerosas, indo em galopes ousados nas pradarias que levam a se perder de vista a liberdade.

                              Odoacro, um rude chefe tribal, derrotou o Império convocando todos os insatisfeitos à luta. Cabe a Dino mirar-se nas lições da história e reunir humildade e sabedoria para liderar o desmanche do sistema de imposturas reinante.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

A REVELAÇÃO

por Raimundo Palhano

“O que eles não sabem, o que jamais aprenderão,
é que no meu lugar milhares se levantarão
para combater o atraso e a mentira...”
Jackson Lago

Em 257 páginas, organizadas e embelezadas por mãos de artesãos cuidadosos, que vão além dos cinzéis delicados de Jhonatan Almada, do engenho de Aziz Santos e tantos outros escultores da liberdade, o Instituto Jackson Lago – IJL acaba de publicar o livro Governo Jackson: O Legado, difundido quase que simultaneamente em Imperatriz e São Luís, no final de setembro de 2013, cidades que marcaram a vida pública do seu Patrono e Inspirador.

Na retaguarda e na linha de frente, ao mesmo tempo, a figura singular de Clay Lago, viúva do ex-governador e presidente do Instituto, responsável direta pela façanha de dar vida, em um prazo extremamente curto, a um projeto institucional de grande magnitude, difícil de concretizar em contextos como o maranhense, submetidos cotidianamente a desafios gigantescos nos aspectos políticos, sociais e econômicos. Passar a limpo a realidade maranhense e as suas circunstâncias, numa perspectiva de fomentar o contrapoder popular e democrático é algo dificílimo e enormemente penoso.

Nesses seus menos de dois anos de vida, o IJL já se encontra devidamente formalizado, com sede provisória bem estruturada; instituiu um padrão de funcionamento estável e regular da sua diretoria; manteve articulada a militância mais próxima e atrai novos parceiros; realizou debates públicos do mais alto nível, com personalidades como Marco Antonio Villa, João Pedro Stédile e Beatriz Bissio; publicou revista, livro e, principalmente, avançou no mapeamento do acervo documental, iconográfico e histórico a respeito da trajetória do Patrono, destacando-se a elaboração de um plano de ações estratégicas, que culminará com a inauguração, em prazo não muito distante, de um centro cultural à altura do Legado e das necessidades de desenvolvimento e emancipação político e cultural do povo maranhense.  

O livro sobre o Legado do governo Jackson Lago chega a tempo de evitar que se apague da memória coletiva a verdade da sua gestão à frente do Executivo. Em tempo algum da formação maranhense se tem conhecimento de uma orquestração política tão eficaz, voltada exclusiva e impiedosamente para apagar da memória do povo um período marcante da história política local. Igor Lago, filho aguerrido e zeloso guardião da obra do ex-governador, a esse respeito se posiciona na orelha do livro em referência, com toda a propriedade: “um governo plural tão combatido, mesmo antes de assumir; tão agredido e sabotado, durante; e, tão desdenhado, após seu fim...”

O Legado não é uma apologia infundada, nem muito menos um incenso apagado e indolor. A matéria-prima com a qual se nutre e fundamenta decorre das mais distintas latitudes de seu governo, produzida por atores sociais e políticos que vislumbraram ali a oportunidade de virar a página da história, em uma sociedade dominada por senhores e coronéis.

Não se trata de um relatório administrativo puro e simples. O Legado deve ser lido como uma carta de navegação, como um relatório de viagem rumo a um Maranhão desejado por legiões de maranhenses que, em distintos tempos existenciais, sonharam com a mudança de um modelo de sociedade que favoreceu apenas aos seus mandatários e donatários.

É um mergulho no mar dos Sargaços, com todo o seu simbolismo e dualidade. Se para os antigos navegantes aquele mar acolhia bestas marinhas e monstros assustadores, que se moviam lentamente entre as embarcações dos navegantes; para outros, felizmente, é também a vitória da ousadia de um timoneiro, seja Colombo, seja Jackson, que abriu as portas do Novo Mundo, singrando um mar tenebroso e sem vento.

Como toda carta de navegação requer do navegante que penetre nas entranhas do mapa. Com toda certeza encontrará, aqui e ali, fantasmas e sonhos, natural quando se busca reinventar uma sociedade pisoteada em sua dignidade humana ao longo dos tempos.

Depois do Legado, por mais insanos que sejam os detratores, não se poderá mais dizer que nada foi feito pelo Governo Jackson. Não se poderá mais acusá-lo de incompetência e omissão, mesmo sob a mais feroz das críticas.


Se inconformados ainda houver, mesmo dentre aqueles que merecem todo o respeito pela honestidade intelectual, o livro registra a trajetória de um político único e exemplar que resistiu bravamente e lutou até a morte por suas crenças e devoção ao povo da sua terra. Por tudo isso é uma obra para hoje e para a posteridade.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

BOM DIA, VICTOR ASSELIN,

por Raimundo Palhano


Recebo, com muito pesar, o comunicado de sua viagem. Viagens sem volta são sempre sofridas. Fiquei abatido e tomado de saudades. Por isso demorei a responder ao seu e-mail.

Difícil dizer alguma coisa quando pessoas como Você decidem queimar os navios e partir. Você deixa um grande vazio em nosso meio e no coração dos que desfrutaram de sua presença. Muita gente da minha e de tantas outras gerações de maranhenses receberam sua influência benfazeja.

Dê-nos um sinal sobre o seu esconderijo. Sei que Você se misturou à terra, à água e ao fogo e continua construindo esperanças celestiais. Mesmo que não queira passar o seu novo e-mail, peça-o emprestado a um dos seus anjos e não deixe de me enviar suas inspiradas mensagens. Tenho todas as que me enviou ultimamente arquivadas, e sempre as leio para escapar dos momentos de solidão e dos desassossegos.

As coisas estão viradas e virando por aqui. Vamos precisar muito de sua coragem e destemor. Não é fácil mudar os desequilíbrios sociais em contextos marcados por costumes arraigados e padrões culturais cristalizados e elitistas.

A realidade em volta da esfera política parece ser uma conspiração contra a dignidade humana. O rebanho está desgarrado e caminhando em direções incertas e perigosas. Impossível atravessar o rubicão sem enfrentar e vencer caminhos tortuosos e procelas devastadoras. O sinal está fechado, as saídas nebulosas e a bússola dos caminhantes perdeu o magnetismo.

Continuo acreditando na beleza, na bondade e no bem, a despeito dos pesadelos mais frequentes. Sobre a possibilidade de uma sociedade justa e boa para todos tenho feito um esforço incomum para não desistir de acreditar. Creio também que para alcançar tudo isso é preciso muita fé e coragem, muito carisma, muita mística, como Você gostava de dizer.

Aí do alto, ou do ventre da terra, seria importante que Você escrevesse mais um livro para os muitos que temem verem suas crenças e sonhos serem grilados, subsumidos aos apetites do comércio de mercadorias.

Conheci o Canadá, seu lindo país, faz anos. Tinha interesse em visitar a terra de missionários canadenses excepcionais, pelo muito que fizeram, por décadas, pelo Maranhão e seu povo mais despossuído, com os quis nutri admiração e amizade.

Posso afirmar que nesse tempo todo se construiu um verdadeiro e singular encontro de civilizações, tendo sido Você, sem a menor dúvida, a maior e mais fecunda fonte de inspiração e o maior e mais efetivo exemplo de resistência, perseverança e luta.

Termino aqui o meu lamento e recomeço agora a minha esperança na ressurreição de sua mística em favor da educação e da libertação do povo maranhense.

Peço-lhe, por fim, que não deixe de me enviar aqueles e-mails surpreendentemente ternos e carregados de coragem que Você me enviava, mesmo sabendo que a hora da partida havia soado.


Com todo o meu carinho e afeto.